— «A Alena vai desocupar o apartamento»? Mas isso é propriedade dela! Queres que tratemos já da escritura em nome da tua irmã — para ficar mais simples?
A Alena gostava do silêncio da manhã. Aquele — quando o bule ainda só começa a estremecer ao lume, o café cheira de tal forma que até respirar sabe bem, e o sol pousa suavemente sobre o velho azulejo, iluminando cada risco como se fosse a biografia daquela cozinha.

Nesses momentos, parecia-lhe que era dona não só do apartamento, mas também do seu destino. Afinal, foi sozinha, sem ajuda de ninguém — poupou, prescindiu de férias, vendeu a casa de campo da avó, para comprar pelo menos algum espaço para viver. Sim, a vista da janela dava para o recinto dos contentores do lixo, mas tinha registo de residência, tinha obras feitas e, o mais importante, não havia vizinhos do outro lado da parede a ouvir música pimba pela noite dentro.
Mas a idílica manhã foi interrompida pela campainha. À porta — Nina Petrovna. Majestosa, como uma imperatriz reformada. Numa mão — uma caixa de bolos, na outra — um olhar capaz de fazer um monge sentir-se culpado.
— Está acolhedor, Alenochka — disse, percorrendo a cozinha com o olhar. — Tal e qual como na casa das pessoas.
— Obrigada, Nina Petrovna — respondeu Alena secamente, escondendo um meio sorriso, para que não se visse que aquele sorriso não tinha nada de alegre. — Esforcei-me.
O bule ferveu, as chávenas foram postas na mesa, os bolos transferidos para um prato. A conversa seguiu pelos temas habituais: o tempo, a tensão arterial, os êxitos do Sasha. Mas por baixo desse burburinho pairava algo espesso, como geleia fria. E a Alena sentia-o na pele.
— A minha Nastya já está crescida! — suspirou de repente a sogra. — Este ano entra para a universidade. Direito.
— Boa menina — acenou Alena. — O importante é que não seja para atriz.
— Sim, sim… — concordou Nina Petrovna. — Só que penso que no dormitório vai ser-lhe difícil. Dois autocarros desde os subúrbios, a confusão… A menina precisa de sossego. E de uma secretária onde possa estudar.
— Então, hão de alugar — encolheu os ombros Alena. — Há imensos anúncios por aí.
— Alugar é dinheiro… — suspirou a sogra, como se acabasse de entregar a última pensão no penhor.
A Alena ficou calada. Conhecia bem aquele truque: primeiro a pena, depois — o pedido, embrulhado em preocupação.
Uma semana depois, a visita repetiu-se, mas desta vez com o Sasha. O marido parecia ter sido obrigado a carregar sacos de batatas no ginásio. Entrou, passou calado direto para o duche.
A Alena mal teve tempo de pôr o bule ao lume, quando Nina Petrovna começou a mexer na toalha da mesa. Era o seu gesto de marca — significava que vinha aí o assunto principal.
— Tenho pensado, Alenochka… A Nastya precisava de um lugar para viver. Seu. Onde ninguém lhe dissesse quando lavar a roupa ou como temperar a sopa.
— Ter o seu próprio apartamento é uma maravilha — respondeu Alena. — Mas, infelizmente, hoje em dia está fora do alcance de muita gente.
A sogra olhou-a como se diante dela estivesse alguém com as mãos mal feitas ou com ideias trocadas.
— Mas vocês têm aí um cantinho. Espaçoso. Perto do instituto…
A Alena enrijeceu-se, como um gato ao som do aspirador.
— Somos só eu e o Sasha. Já nos sentimos apertados assim — disse ela calmamente.
— Para duas pessoas que vivem no amor, o espaço nunca falta — respondeu Nina Petrovna com ar de filósofa.
A Alena bufou para si própria. Amor é amor, mas os armários seguem horários.
— Mãe, vamos deixar isso para lá — interveio o Sasha, saindo da casa de banho. — A Nastya ainda nem entrou na universidade.
— Entrará — cortou a sogra com firmeza. — A nossa menina é inteligente.
O Sasha parecia alguém chamado a uma reunião de pais sobre algo que não fazia ideia.

Depois veio a terceira visita. Desta vez com um álbum de fotografias. Nastya no nono ano, Nastya na praia, Nastya com o cão, com um balão, com Nina Petrovna em frente a um lilás em flor. Cada fotografia vinha acompanhada de comentários — com nostalgia, orgulho e uma leve sugestão de: «como é possível negar a uma beleza assim».
— Que linda… — suspirava a sogra. — E não há onde morar. Tudo recai sobre mim. E vocês — jovens, promissores…
— Nós também pagamos hipoteca — lembrou Alena. — E os nossos salários não são de ouro.
— Mas vocês já têm uma base. E a Nastya… só sonhos.
Alena permaneceu em silêncio. Mas algo mexeu-se dentro dela, como uma mosca no compota.
À noite, o Sasha falou primeiro.
— O que achas da Nastya?
— Como assim? Normal. É como uma irmã.
— É que a mãe preocupa-se. Vai ser difícil para ela sozinha na cidade. Estudante…
Alena pousou o garfo.
— Queres dizer que ela vai mudar para cá?
— Não, não… Só… talvez temporariamente?
— E temporariamente quanto tempo? Um semestre? Um ano? Cinco anos?
O Sasha encolheu os ombros.
Alena sentiu crescer no peito algo pegajoso — não era problema, era traição. Lenta, bem organizada, com bolos à entrada e malas à saída.
Naquela noite, demorou a adormecer. Parecia-lhe que do outro lado da parede alguém pensava: «já decidiram tudo. Só estão à espera do momento certo».
Entretanto, Nina Petrovna em casa folheava o “Cian”, calculava o preço de um terreno de campo, fechou o portátil e disse baixinho na escuridão:
— Tudo pelos filhos. Tudo pela família…
Em junho, o apartamento começou a respirar de forma diferente. Não como antes. Como se houvesse uma corrente de ar na zona da cozinha — silenciosa, mas persistente, a infiltrar-se nos cantos mais escondidos. Ou talvez não fosse vento, mas os telefonemas que, da manhã à noite, perturbavam a casa. Ligava Nina Petrovna. Todos os dias. Começava sempre igual: «Só um bocadinho, só um minuto!» — e depois seguia-se quarenta e cinco minutos, dos quais vinte de queixas e o resto — críticas disfarçadas de preocupação.
— Sasha, ela está exausta — dizia o marido à Alena, esfregando as têmporas. — Coitada da mãe. Carrega tudo sozinha.
— Quem é que carrega? — Alena virou-se para ele com a colher na mão. — A si própria e à filha exemplar que faz selfies mais do que abre livros?

O Sasha encolheu os ombros. Não sabia nem gostava de discutir. Era do tipo de pessoas que preferem ceder do que contrariar a mãe.
— Estás a ser injusta — murmurou.
— Claro — concordou Alena. — E ainda sou a madrasta má. Dá-me a vassoura, vou tirar a Nastya do dormitório.
O Sasha estremeceu, mas ficou calado.
Entretanto, a sogra seguia o seu método habitual: pena calculada, uma pitada de ansiedade e tudo temperado com estratégia.
— Alena — sussurrou uma vez ao telefone — não consigo dormir descansada. A Nastya não terá onde cozinhar! Esses fogões nos dormitórios estão todos cheios de calcário! E como é que ela vai fazer sopa?
— Que coma shawarma — respondeu Alena friamente. — Isso é moderno.
No telefone ouviu-se um suspiro profundo, como se uma corrente de consciência tivesse soprando no ouvido de Alena.
— Eu pensei que éramos família… E vocês são como estranhos. Sem calor humano. Só pensam em vocês…
Depois disso, Alena não atendeu o telefone durante uma semana. Sabia que, de outra forma, a sogra iria pressioná-la — não com faca, mas com drama. Infinito, pegajoso, com frases do tipo: «não sirvo para ninguém», «enterrem-me sem coroas».
A meio do mês, Nastya passou os exames. A alegria de Nina Petrovna foi tal como se tivessem tomado Berlim.
— Entrou! — gritou ao telefone de tal forma que o gato da vizinha se escondeu debaixo da cama. — A minha menina! Bolsa de estudos! Direito! Moscovo!
Alena, é verdade, ficou contente. Até fez o bolo de cenoura — o favorito da Nastya. Foram visitar a sogra e fizeram uma pequena celebração. Nastya sentou-se quieta, comeu o bolo, olhando fixamente para um ponto. Como se soubesse que o principal estava prestes a começar.
E começou.
— Agora o principal é a casa — suspirou Nina Petrovna, servindo-se de meio copo de champanhe, como quem toma valeriana. — O dormitório não é para a Nastya. Lá bebem, discutem, homens estranhos passeiam…
— Mãe, sem estereótipos — cortou o Sasha. — Já discutimos tudo.
— Hum, discutimos — murmurou Alena. — Só que parece que não neste apartamento.
Nina Petrovna fez de conta que não ouviu. Ou ouviu, mas decidiu que a vingança seria servida no domingo.
— Vocês são família — disse de repente. — E família ajuda. Não ignora. Eu também podia dizer: «não é comigo», quando o Sasha teve febre de quase quarenta e eu passei noites no hospital.
— Isso foi há vinte anos — disse o Sasha, sombrio. — E era só gripe.
— Não importa! — a sogra ergueu o queixo. — O importante é cuidar. E agora preocupo-me sozinha com tudo! E vocês — com o vosso apartamento… Como se estivessem trancados num bunker!
Alena levantou-se em silêncio e foi para a cozinha. Precisava de respirar. As mãos tremiam. Algo mexia-se sob as costelas — medo, não pelas paredes ou móveis, mas pelo que a pessoa amada estava prestes a trair. Não por outra mulher — mas pela sua, a “verdadeira” família, segundo ele.
Depois vieram as “insinuações com objetos”. A sogra começou a aparecer com mais frequência. Trazia uma manta, uma panela “para o futuro apartamento”, uma almofada “por precaução”.
— Alena, tens espaço no sótão? — perguntou um dia. — Eu deixaria a mala da Nastya lá. De qualquer forma, depois terei de trazer para aqui.
— Para cá — é para onde? — perguntou Alena, sem levantar os olhos da cebola.
— Bem… — Nina Petrovna baixou o olhar. — Não é óbvio?
Nesse momento, Alena cortou-se num dedo. O sangue espirrou sobre a tábua, como símbolo de que tudo já tinha ido demasiado longe.
— Não faz mal, eu lavo — disse, quando o Sasha saltou com o barulho.
Ele tentou abraçá-la, mas ela afastou-se. O toque dele tornou-se repentinamente frio. Como se alguém tivesse pressionado um botão — e tudo dentro dela desligou-se.
— Mãe, pedi-te para não decidires por nós — disse ele naquela noite. — Eu e a Alena temos de falar sobre isto. Juntos.
— Falem, falem — bufou a sogra. — Só lembra: a Nastya é a tua família. E essas “esposas” vêm e vão.
Alena ouviu do corredor. Estava descalça, com a toalha ao pescoço, e de repente percebeu: era isso mesmo, o que pairava no ar há tanto tempo, agora dito em voz alta.

Vêm e vão.
Os homens pertencem quase sempre às suas mães. Ou às irmãs. Ou ao passado. E as esposas — apenas incómodos temporários. Uma fase entre “ele ainda é meu” e “ele já é de outra”.
Naquela noite, Alena foi dormir separada. Sob o mesmo cobertor com um homem que era, supostamente, o seu marido, mas que mais parecia um passageiro aleatório num comboio de terceira classe.
Adormeceu perto da manhã. E sonhou com uma mala enorme, que alguém tentava com toda a força arrastar para o seu apartamento. E ela não conseguia fechar a porta.
A manhã veio estranhamente calma. Demasiado calma para ser verdade.
Alena acordou com o cheiro de croissants e o silêncio. Um silêncio onde se ouvia o frigorífico respirar. Sem toques de telemóvel, sem gemidos ao telefone, sem conversas abafadas atrás da porta. Como se alguém tivesse retirado o som do filme, deixando apenas a imagem.
Ela esticou-se, bocejou docemente, e no meio do torpor ouviu o Sasha, calçando os ténis, dizer algo a correr — sobre a loja ou o café. Ela respondeu com um murmúrio quente, embora por dentro já sentisse o arrepio: tudo demasiado perfeito. E perfeito, como Alena sabia há muito, acontece apenas antes de um terramoto.
Dez minutos depois — toque do telefone. Não um, mas três seguidos, nervosos, como se do outro lado estivesse alguém que só sabe esperar até “três”.
Alena, ainda sem enfiar a mão na manga do robe, arrastou-se até à porta. E viu a cena que a faria rir num sonho, mas que na realidade a deixou imóvel: Nina Petrovna, Nastya, duas malas, uma mochila e um saco do “Pão de Açúcar” cheio de mantimentos.
— Bom dia! — cantou a sogra, com a alegria de quem finalmente conquistou uma fortaleza. — Viemos tratar de assuntos!
Alena piscou os olhos.
— Que assuntos, desculpe?
— A Nastya vai mudar-se! — anunciou Nina Petrovna com entusiasmo. — Primeiro de setembro está à porta. É preciso instalar-se.
— Para onde vai mudar-se?
— Para onde? — disse a sogra, espalhando as mãos. — Para cá, claro. Já preparei tudo: roupa de cama, lâmpada, cadernos…
— Espera — Alena encostou-se ao batente da porta, como se as pernas tivessem ficado moles. — Queres dizer que ela vai viver… aqui?
— Sim! — acenou a sogra, como se falasse de uma semana na casa de campo. — A universidade fica perto, o apartamento é espaçoso, e o ambiente é acolhedor.
— Este é o meu apartamento — disse Alena, rouca.
— Não estás sozinha — respondeu a sogra. — Tens o Sasha, trabalho, tens tudo. E a Nastya… nada.
— A Nastya tem uma mãe que perdeu a noção — disse Alena friamente.
Nastya ficou em silêncio. Olhos no chão, como uma aluna apanhada a copiar. O rosto esticado, bochechas rosadas.
Nesse momento, a porta abriu-se. O Sasha voltou — com café numa mão, sacos na outra, ainda com um sorriso no rosto. Até que o olhar caiu sobre as malas, a mãe, a irmã e a esposa pálida, agarrada à maçaneta como a um salva-vidas.
— O que se passa aqui? — perguntou devagar.
— Mudança! — respondeu Nina Petrovna com entusiasmo. — Já discutimos tudo!
— Não, mãe — a voz do Sasha ficou pesada. — Disseste que a Nastya precisava de um lugar para viver. Pensei em aluguer ou dormitório. Mas não que a Alena tivesse de sair.
— E porque não? — indignou-se a sogra. — Ela não é inválida nem mãe solteira. Mulher forte, trabalhadora. Arranja algo para alugar. E a Nastya onde vai morar?
— Aqui? — Sasha olhou para a mãe como se fosse uma estranha. — Decidiste tudo por nós?
— Isto é família! — bateu no peito Nina Petrovna. — Não queres ajudar a irmã?
— Não quero, se isso significa expulsar a minha esposa! — disse Sasha com voz gelada.
— Dei-te a minha vida! — arfou a sogra. — Não dormi à noite! Eu…
— …planeaste ocupar o apartamento? — interveio Alena. — Jogada brilhante.
Nastya soluçou.

— Eu não queria… A mãe disse que vocês concordaram…
— Alena não concordou — disse Sasha. — E tu sabias disso.
— Sasha! — gritou a mãe. — Escolhes-na a ela? A ela, que nem quer ajudar a irmã mais nova?!
Ele pousou os sacos no chão, aproximou-se da esposa e abraçou-a pelos ombros.
— Escolho uma mulher que não expulsa as pessoas de casa. Que acredita em parceria, e não em conquistas.
— Estás a expulsar a mãe? — sibilou Nina Petrovna.
— Não — respondeu ele. — Peço para sair alguém que veio com intenções de conquista, não de visita.
O silêncio caiu pesado. Depois a sogra ergueu o queixo:
— Vamos, Nastya.
— Desculpa, Alen — disse Nastya baixinho, com algo quase verdadeiro na voz.
Alena assentiu. Não havia raiva — apenas cansaço. Aquele mesmo que chega depois de doença: o vírus já não irrita, só se quer dormir.
A porta fechou-se silenciosamente, sem bater.
O Sasha sentou-se ao lado, segurou-lhe a mão.
— Sou um idiota — disse ele.
— Um pouco — suspirou ela. — Mas passa.
Ele beijou-lhe a têmpora. Silenciosamente, como um pedido de desculpas.

Uma semana depois, Nastya mudou-se para o dormitório. Alena levou-lhe um bolo caseiro e um conjunto de loiça. Nina Petrovna não saiu do quarto.
Depois a sogra ligava raramente. Nas festas suspirava pelo telefone: «E eu tinha uma família…» E acrescentava: «Algumas noras pensam só em si…»
Alena não discutia. Discutir com o passado é como tentar varrer um comboio: muito barulho, nenhum efeito.
No apartamento voltou o silêncio. Verdadeiro. Sem malas. Sem suspiros pesados. Sem «a mãe disse».
E aquela foi uma pequena, mas muito pessoal, vitória.