— Este é o meu apartamento, e você quem é? — declarou a nova esposa do marido, sem saber quem estava atrás da porta.

Svetlana estava diante da porta familiar, mexendo nas chaves dentro da bolsa.
Estranho — a fechadura claramente tinha sido trocada. Ela franziu a testa, conferindo o número do apartamento. Não, estava certo — terceiro andar, apartamento vinte e sete. Exatamente aquele onde ela passou oito anos de casamento.
— Igor disse que poderíamos pegar as roupas de inverno das crianças hoje por volta das três — murmurou, olhando para o relógio. — Quinze e cinco minutos. Será que ele esqueceu?
Ela apertou o botão da campainha. A melodia mudou — em vez do habitual “Für Elise”, agora tocava alguma música pop.
Passos em saltos altos soaram atrás da porta. O trinco clicou.
A porta se abriu, e no batente surgiu uma alta loira de cerca de trinta anos, vestida com um roupão rosa-choque. Svetlana não a conhecia, mas a suspeita imediatamente esclareceu tudo.
Então, ali estava ela — a famosa Kristina, sobre quem os conhecidos cochichavam nos últimos seis meses.
— Quem é que você veio ver? — perguntou a loira friamente, lançando um olhar avaliador a Svetlana.
— Olá, sou Svetlana, mãe de Timofei e Polina. Combinei com Igor de buscar as roupas das crianças.
O rosto da mulher mudou instantaneamente. As sobrancelhas se juntaram, os lábios se apertaram em uma linha fina.
— Este é o meu apartamento, e você quem é? — afirmou abruptamente, estendendo a mão na porta. — Que roupas? Igor não está em casa, e eu não sou obrigada a deixar entrar alguém que não conheço!
Svetlana sentiu aquela sensação familiar de calor no peito. Será que essa pessoa não entende quem está diante dela? Ou entende e está fingindo ser a dona da situação?
— Desculpe, mas parece que você não compreende bem a situação — respondeu Svetlana com firmeza. — Eu sou mãe dos filhos de Igor e combinamos…
— Não combinamos nada! — interrompeu Kristina, elevando a voz. — Eu sou a dona aqui, este é o meu território! E você… quem é você afinal? Ex-esposa? Então continue sendo ex! Não tem nada a fazer aqui!
A porta do apartamento vizinho se entreabriu. Um olho curioso da tia Vera, que sempre sabia de todas as novidades do prédio, espiou pela fresta.
— Meninas, mais baixo — soou a voz dela. — Que gritaria é essa? Sveta, é você? Ah, achei que a voz era familiar…
Kristina se virou para a vizinha:
— Está tudo bem! Só que tem alguém aqui… se intrometendo! Já vai embora!
— Eu não vou embora até pegar as coisas das crianças — disse Svetlana firmemente. — E, aliás, ainda estou registrada neste apartamento. Então a questão de quem é a dona aqui é bastante discutível.
Kristina ficou pálida e depois vermelha.
— Como assim registrada? Igor não falou nada! Você está mentindo!
— Quer que eu mostre o passaporte?
Um silêncio constrangedor pairou no ar. Kristina claramente estava confusa, sem saber como reagir à informação. Svetlana aproveitou o momento:
— Talvez seja melhor me deixar entrar? Eu pego rápido os casacos e botas do Tima e da Poli e vou embora. Ninguém quer fazer um espetáculo para o corredor inteiro.
— Não! — gritou a loira, recuando da porta, mas sem retirar a mão. — Não sei o que você está inventando sobre registro! Pode ser uma golpista! Falsificar documentos é fácil!
Svetlana respirou fundo. Calma. Essa histérica simplesmente não conhece toda a situação. Ou conhece, mas tenta mostrar superioridade. De qualquer forma, discutir com ela é abaixo de sua dignidade.
— Certo — disse ela com firmeza, tirando o telefone. — Vamos ligar para Igor e esclarecer.
Igor atendeu na terceira chamada. Ao fundo ouviam-se sons de escritório — teclas sendo digitadas, vozes abafadas.
— Alô, Sveta? Aconteceu alguma coisa?
— Igor, estou no apartamento. Sua… esposa não me deixa pegar as coisas das crianças. Diz que não sabe quem eu sou.
Houve um silêncio. Então Igor resmungou baixinho.
— Kristina está aí?
— Sim, está na minha frente dizendo que este é o apartamento dela, e que eu não sou ninguém.
Svetlana pronunciou essas palavras deliberadamente em voz alta, olhando diretamente nos olhos da loira. Ela lambeu os lábios nervosamente.
— Igor, diga a ela quem eu sou! — gritou Kristina, arrancando o telefone das mãos de Svetlana. — Por que você não me disse que sua ex-esposa apareceria aqui? Eu não assinei para isso!
— Kristina, acalme-se — disse a voz cansada de Igor pelo alto-falante. — Svetlana é mãe dos meus filhos. Combinamos que ela pegaria as roupas de inverno deles. Deixe-a entrar.
— Mas por que só agora devo saber disso? — a voz de Kristina subia cada vez mais. — Isso é humilhante! Eu moro aqui, e algumas ex-esposas aparecem sem aviso!
— Eu te avisei ontem — respondeu Igor pacientemente. — Você estava assistindo à série e disse “ok, tudo bem”. Lembra?
Kristina piscou confusa. Parecia lembrar.
— Bem… isso não significa que eu concordei! Quem sabe o que eu disse “ok” lá!
Svetlana pegou o telefone de volta:

— Igor, quanto tempo isso vai durar? Preciso pegar os casacos das crianças e levá-las para a escola. A Poli tem excursão amanhã e o Tima tem treino.
— Sim, claro, entre. As roupas estão no armário do hall, onde sempre estiveram. Kristina, por favor, não atrapalhe.
— Eu não estou atrapalhando! — protestou ela. — Só estou protegendo minha casa de invasão!
— Invasão? — Svetlana não resistiu à ironia. — Estou pegando os casacos das crianças, não planejando passar a noite aqui.
— E como eu sei? Talvez você tenha decidido reconquistar o marido? Todos são assim — primeiro vêm “pegar as coisas” e depois começam a impor regras!
A tia Vera, do apartamento oposto, já se inclinava pelos ombros:
— Meninas, o que está acontecendo? Sveta, você está bem? E quem é essa? Igor se casou de novo?
— Não é da sua conta! — respondeu Kristina.
— Como assim não é da minha conta? Conheço a Svetochka há oito anos, uma boa menina. E vocês estão gritando com ela como vendedoras de feira!
— Obrigada, tia Vera — disse Svetlana cansada. — Está tudo bem, apenas um mal-entendido.
Ela se voltou para Kristina:
— Escute, vamos sem histeria. Eu entendo que a situação seja desagradável para você. Mas as crianças não têm culpa dos problemas entre os pais.
Elas precisam de roupas quentes. Apenas cinco minutos — e desaparecerei da sua vida até a próxima vez que precisar pegar algo.
— Até a próxima vez? — Kristina ficou pálida. — Ou seja, você vai aparecer aqui regularmente?
— Tenho dois filhos com Igor. Naturalmente, às vezes terei que vir aqui.
— Isso não pode ser! Igor deveria ter resolvido tudo! Ele prometeu que o passado ficaria no passado!
Svetlana sentiu uma pontada de pena daquela mulher. Coitada, aparentemente Igor pintou para ela um quadro bonito de uma vida sem “resquícios” do casamento anterior.
— Crianças não são passado — disse ela suavemente. — São presente e futuro. E se você planeja um relacionamento sério com Igor, terá que aceitar isso.
Kristina ficou boquiaberta. Parece que a dura realidade começava a chegar até ela. Svetlana aproveitou a distração e tirou o passaporte da bolsa.
— Aqui, veja. Registro ativo. Formalmente, tenho todo o direito de estar neste apartamento.
Kristina pegou o documento automaticamente e passou os olhos na página certa. O rosto dela se alongou.
— Mas como assim? Estamos planejando o casamento… Igor disse que o apartamento é totalmente dele…
— Talvez ele tenha esquecido de mencionar alguns detalhes — disse Svetlana secamente.
— Você entende que divórcio oficial e divisão de bens são coisas diferentes? Nos divorciamos rapidamente, pelo cartório. Questões de propriedade ficaram para depois.
— Ou seja… você pode reivindicar o apartamento? — a voz de Kristina tremia.
— Teoricamente — sim. Mas não pretendo.
Tenho minha própria casa, e as crianças estão confortáveis comigo.
O alívio no rosto da loira era tão evidente que Svetlana quase sorriu.
— Então por que está me dizendo isso?
— Para que você entenda: não sou uma pedinte nem uma ex-esposa insistente. Sou mãe dos filhos de Igor e tenho direitos. E na próxima vez que me vir nesta porta, talvez não valha a pena fazer espetáculo.
Kristina permaneceu em silêncio, digerindo a informação. Finalmente, recuou relutantemente:
— Está bem… entre. Mas rápido.
Svetlana entrou no hall e imediatamente sentiu como a atmosfera do apartamento havia mudado. Sua bagunça acolhedora desaparecera, os desenhos das crianças no refrigerador foram substituídos por fotos de Kristina em porta-retratos.
Até o cheiro mudou — perfume doce e enjoativo em vez do aroma familiar de bolos caseiros.
— Onde Igor guarda as coisas das crianças? — perguntou Kristina, tentando claramente assumir o controle da situação.
— No armário do hall, na prateleira de cima.
Svetlana abriu o armário familiar e alcançou a prateleira. Kristina observava cada movimento, como se temesse que ela levasse algo valioso.
— Aqui está o casaco da Polina, e este é do Timofei… Onde está o gorro dele? Era azul e de tricô…
— Como eu saberia? — respondeu Kristina irritada. — Não fico de olho nas roupas dos filhos dos outros.
— Eles não são filhos de outros — corrigiu Svetlana calmamente. — Se você se casar com Igor, será madrasta deles. Quer queira ou não.
— Eu não assinei para ser madrasta! — explodiu Kristina. — Igor disse que as crianças são crescidas e independentes, que não haveria problemas!
— Polina tem sete anos, Timofei nove. São crescidos e independentes?
Kristina piscou confusa. Aparentemente, Igor não mencionou esse detalhe. Ou ela não prestou atenção, envolvida pelas perspectivas românticas.
— Nove anos? Mas Igor disse…
— O que Igor disse não é tão importante. O que importa é a realidade — Svetlana encontrou o gorro de Timofei e cuidadosamente colocou todas as roupas no saco.
— Você terá muitas descobertas pela frente, se realmente planeja passar a vida com ele.
— O que você quer dizer?
— Nada demais. Apenas… Igor sabe apresentar as coisas de forma vantajosa. Especialmente quando quer impressionar alguém.
Kristina olhou fixamente para Svetlana:
— Você está tentando nos separar?
— Por quê? — Svetlana perguntou surpresa. — Qual seria meu benefício nisso? Pelo contrário, quanto mais feliz Igor, mais tranquila é a minha vida.
— Então por que diz tais coisas?
Svetlana parou, segurando as botas de Polina. Será que avisar alguém sobre fatos óbvios é prejudicar?
— Porque vejo que vocês vivem de óculos cor-de-rosa. E a realidade pode ser dolorosa quando esses óculos caírem por si mesmos.
Kristina sentou-se no puff do hall, de repente parecendo muito jovem e confusa.
— Não entendo…
Ficamos juntos por seis meses, ele parecia tão confiável, sério. Dizia que o passado estava fechado, que estava pronto para uma nova vida…
Svetlana sentiu uma empatia inesperada por aquela mulher.
Sim, ela se comportava de forma rude, mas no fundo era apenas uma menina assustada, que de repente percebeu que se apaixonou pela pessoa errada.
— Sabe — disse Svetlana, agachando-se ao lado dela —
— Igor não é uma má pessoa. Ele ama as crianças, é trabalhador, sabe ser encantador.
Mas ele tem uma característica: não gosta de complicações. Quando se depara com um problema, prefere não notá-lo ou fingir que não é tão sério quanto realmente é.
— E eu faço o quê com isso?
— Apenas saiba disso. E não tenha medo de fazer perguntas diretas. Sobre as crianças, sobre dinheiro, sobre planos. Sobre com que frequência eu vou aparecer e se você está disposta a lidar com isso.
Kristina assentiu, enxugando as lágrimas que escorriam.
— E por que você está me dizendo isso? Depois do jeito que eu me comportei…
— Porque eu entendo você. Quando me casei com Igor, também não sabia de muita coisa. Pensava que o amor resolveria todos os problemas. Mas os problemas têm a tendência de se acumular se forem ignorados.
— É por isso que vocês se divorciaram?
Svetlana refletiu. Como explicar que o divórcio não foi uma tragédia, mas uma libertação? Que viver com alguém que constantemente evita a realidade é insuportável?
— Nós nos divorciamos porque crescemos em direções diferentes. Igor queria que eu fosse uma esposa conveniente — sem fazer muitas perguntas, sem exigir conversas sérias, contente com o que havia.
Eu queria um parceiro com quem pudesse construir um futuro juntos.
— E agora você é feliz?
— Sim — respondeu Svetlana sem hesitar.
— Demorei um pouco para entender isso, mas sim. Não me sinto mais invisível. As crianças me veem como realmente sou, e não como alguém que finge que está tudo bem.
Kristina se levantou, ajustando o roupão.

— Obrigada. Pela honestidade. E… desculpe pelo jeito que me comportei. Eu apenas fiquei assustada.
— Tudo bem. Na sua posição, eu também ficaria confusa.
Svetlana se dirigiu à porta, mas Kristina a deteve:
— Espere. Posso… posso fazer mais uma pergunta?
— Claro.
— As crianças… elas vão me odiar? Por eu estar com o pai delas?
Svetlana sorriu — pela primeira vez em toda a conversa, de forma genuína e calorosa.
— As crianças são muito sábias. Elas não odeiam as pessoas sem motivo. Se você for honesta e gentil com elas, se não tentar substituir a mãe ou colocá-las contra mim — tudo ficará bem.
Elas merecem ver o pai feliz.
— E se eu e Igor também não dermos certo?
— Então será a sua experiência e a sua escolha. O importante é não perder anos com algo que desde o início não funciona.
Svetlana saiu para o corredor do prédio. Kristina a observou e disse baixinho:
— Boa sorte.
— Para você também.
Descendo as escadas, Svetlana sentiu um estranho alívio. Não por finalmente ter pego as coisas das crianças, mas por conseguir permanecer fiel a si mesma.
Sem se humilhar, sem entrar em conflito, mas também sem se calar quando precisava falar a verdade.
O celular apitou — uma mensagem de Polina: “Mãe, vamos fazer panquecas hoje?”
“Claro, meu amor. Já estou indo buscá-las.”
Svetlana sorriu, entrando no carro. Casa, crianças, panquecas para o jantar — sua vida real, honesta, a esperava. E isso era maravilhoso.