“Falsificação, traição e mentiras fétidas: como tirei o chão debaixo dos pés dos canalhas que queriam apagar o meu nome”

“Falsificação, traição e mentiras fétidas: como tirei o chão debaixo dos pés dos canalhas que queriam apagar o meu nome”

– Mas vocês estão a gozar? O que é que estão a fazer aqui?! – gritou Nina, irrompendo pela porta de casa.

– Calma lá, vamos ficar só um bocadinho por aqui – atirou, atrevida, a cunhada.

Nina subiu apressada as escadas, arrastando a mala atrás de si. A deslocação tinha sido extenuante e tudo o que desejava era um duche quente e a sua própria cama. A chave rodou na fechadura, a porta abriu-se e logo algo lhe pareceu estranho.

No hall sentia-se o perfume de outra pessoa.

Ela parou, atenta. Da cozinha vinha o leve tilintar de uma colher numa chávena.

— Serj? — chamou Nina, cautelosa, mas não obteve resposta.

Avançou mais para dentro do apartamento e o coração começou a bater descompassado.

À mesa da cozinha estava sentada Olga, a irmã do marido, mexendo tranquilamente o açúcar no café. Nem sequer levantou os olhos para Nina.

— O que estão a fazer no meu apartamento? — a voz de Nina tremeu.

Olga ergueu lentamente o olhar, um sorriso frio a formar-se nos lábios.

— Não te preocupes, não vamos ficar muito tempo.

Nina sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.

— Onde está o Sérgio?

— Ocupado.

— Isto é alguma piada?! — Nina avançou de repente. — Quem vos deu autorização para entrarem assim na minha casa?

Olga bebeu um gole de café, pousando depois a chávena com indiferença.

— Tua casa? Querida, parece que não percebeste.

Nina agarrou-se ao tampo da mesa para não cair. A cabeça zumbia: o que estava a acontecer?

Tirou o telefone e marcou o número do marido.

Chamadas. Chamadas. Chamadas.

— Sérgio, liga-me já — sussurrou na caixa de voz.

Olga esboçou um sorriso irónico.

— É inútil.

Nina ignorou-a. Correu para o quarto — e o mundo virou-se do avesso.

As suas coisas estavam arrumadas em sacos de lixo pretos. No roupeiro pendiam vestidos que não eram seus. Na mesa de cabeceira, uns brincos desconhecidos.

E em cima da cómoda — um documento.

Um impresso oficial.

Pedido de divórcio.

E uma assinatura.

A sua assinatura.

Mas ela não a tinha posto.

Nina agarrou a folha com dedos trémulos. Os olhos percorriam as linhas, apanhando fragmentos: «aceito a dissolução do casamento… não apresento queixas… divisão de bens…»

Última página. Assinatura. Sim, era a sua caligrafia — mas tinha a certeza de nunca ter assinado aquilo.

Atrás dela ouviu-se um leve pigarrear.

— Então, já percebeste? — Olga estava encostada ao batente, braços cruzados.

— Isto é falsificação — a voz de Nina saiu rouca. — Eu nunca…

— O Sérgio disse que trataste de tudo antes de viajar. Pelos vistos, esqueceste-te.

— Estás a mentir!

Nina correu para a mesa de cabeceira, onde costumava guardar o passaporte. A gaveta estava vazia.

— Onde estão os meus documentos?

— Acalma-te — Olga deu um passo em frente. — Não queres arranjar confusão, pois não?

— Quero saber o que se passa aqui!

Olga suspirou, como quem explica a uma criança.

— É simples. Já não és mulher. Nem dona. Dentro de um mês sais daqui.

Nina sentiu arrepios pela espinha.

— E para onde é que eu vou?

— Onde quiseres.

— Este apartamento é meu!

— Não — Olga sorriu. — Este apartamento é do Sérgio.

Nina virou-se bruscamente e correu para o armário onde guardavam os documentos da casa. A pasta tinha desaparecido.

— Onde está o contrato?

— Com o advogado.

— Que advogado?!

— O que ajudou o Sérgio a tratar de tudo.

Nina levou as mãos à cabeça. As têmporas latejavam.

— Ele não podia… Comprámos este apartamento juntos!

— Os papéis dizem o contrário.

Nesse momento, ouviu-se o clique da fechadura na entrada.

Ambas se viraram.

Na porta estava Sérgio.

— Nina… — parecia cansado. — Chegaste mais cedo.

— Explica-me que palhaçada é esta?! — a voz dela quase se quebrou num grito.

Ele lançou um olhar a Olga e fechou lentamente a porta.

— Vamos falar com calma.

— Com calma?! Falsificaste a minha assinatura! Expulsaste-me da minha própria casa!

— Ninguém te está a expulsar — ele passou a mão pelo rosto. — Simplesmente… tudo mudou.

— O que mudou?!

Ele calou-se.

Olga disse baixinho:

— Diz-lhe.

Sérgio cerrou os punhos.

— Pedi o divórcio.

O silêncio caiu como um peso.

— Porquê? — a voz de Nina era um sussurro.

Ele evitou o olhar dela.

— Porque já não te amo.

As palavras atingiram-na como uma facada.

— Quando… — Nina engoliu em seco. — Quando decidiste isso?

— Há um mês.

— E em vez de mo dizeres na cara, falsificaste documentos?

— Era mais fácil assim.

Nina soltou uma gargalhada amarga, quase histérica.

— Mais fácil. Pois claro.

Olhou para Olga, para Sérgio, para a mala estranha no hall.

— E ela aqui, que papel tem?

Sérgio baixou os olhos.

— A Olga vai ajudar-me… a tratar de tudo.

— Então já decidiram tudo por mim.

— Nina…

— Está tudo dito.

Pegou no primeiro saco com as suas coisas e dirigiu-se para a saída.

— Para onde vais? — chamou Sérgio.

— Longe daqui. Já que estavam tão ansiosos por me correr.

A porta fechou-se com estrondo.

O vento gelado de novembro batia-lhe no rosto, mas ela mal sentia o frio. Ouvia o zumbido nos ouvidos, enquanto o peito ardia de raiva. Caminhava pela rua com o telefone apertado na mão.

Tinha de encontrar um advogado. Já.

Quarenta minutos depois, estava sentada diante de um homem de óculos, cansado, que folheava lentamente as cópias dos documentos.

— A senhora afirma que não assinou o consentimento para o divórcio?

— Sim! É uma falsificação!

— Hum… — o advogado tamborilou com os dedos no papel. — Mas aqui há uma autenticação notarial.

— Como é possível?!

— Se o notário estava em conluio… ou se a assinatura é realmente sua, mas não se recorda…

— Eu não estou louca! Eu lembraria!

Ele tirou os óculos e esfregou os olhos, cansado.

— Senhora Sokolova, sem uma perícia caligráfica não conseguimos provar nada. E isso pode demorar semanas…

— Eu não tenho semanas! Eles já deitaram as minhas coisas fora!

— Há outro ponto… — ele pousou os documentos. — Segundo estes papéis, o apartamento está registado apenas em nome do seu marido.

Nina ficou imóvel.

— Mas… isso é impossível. Comprámo-lo juntos, durante o casamento!

— No registo consta um único proprietário — Sergey Viktorovich Sokolov.

— Isso é falsificação!

— Tem o contrato de compra e venda? Comprovativos de pagamento da hipoteca?

Nina começou a procurar no telemóvel, nervosa.

— Aqui! — apontou para o ecrã. — Transferências da minha conta para o pagamento!

O advogado suspirou.

— É apenas uma prova indireta. Sem o seu nome nos documentos da casa…

De repente, o telemóvel de Nina vibrou. Uma notificação do banco.

«Foram transferidos da sua conta 1 850 340 rublos. Saldo disponível: 4 672 rublos»

— O quê… — a voz dela falhou. — O que é isto?!

Ligou imediatamente para o marido. Novamente só chamava.

— Ele esvaziou a nossa conta conjunta… — sussurrou.

O advogado franziu a testa.

— Poupanças conjuntas?

— Sim… não! É a minha conta pessoal, mas…

Ela lembrou-se, de repente. Há um ano, Sergey convenceu-a a passar-lhe uma procuração — «só para precaução, caso aconteça alguma coisa».

— Ele… ele tinha acesso…

Tudo escureceu à sua volta. Nina agarrou-se à beira da mesa.

— Está tudo perdido…

— Nem tudo — o advogado endireitou-se de repente. — Se for confirmada a falsificação da assinatura, é um crime.

— Mas quanto tempo isso vai demorar?

— Meses.

Nina tapou o rosto com as mãos.

— Onde é que eu vou viver agora? Com que dinheiro?

— Tem familiares?

— A minha mãe vive noutra cidade…

De repente, levantou a cabeça.

— Pensão de alimentos? Ele é obrigado…

O advogado abanou a cabeça.

— Segundo estes documentos, renunciou voluntariamente a todas as reclamações.

Nina levantou-se de repente, sentindo-se tonta.

— Então, ele planeou tudo…

— Infelizmente, sim.

Ela enfiou os documentos na mala com raiva.

— Obrigada. Eu… eu vou pensar.

Já era noite. Nina ficou parada diante do edifício da consultoria jurídica, sem saber para onde ir. No bolso — o telemóvel, o passaporte (que por sorte tinha levado para a viagem) e 4 672 rublos.

O telemóvel voltou a vibrar. Número desconhecido.

— Estou?

— Nina Viktorovna? — uma voz feminina. — Fala a Oksana da agência imobiliária. Confirma a visita de amanhã ao seu apartamento?

Nina ficou gelada.

— Que apartamento?

— Fração 42, Rua Gagarina… o proprietário Sergey Sokolov assinou connosco o contrato de venda.

O mundo começou a rodar.

— Quando… quando é que ele fez isso?

— Ontem assinou o contrato. É co-vendedora?

Nina baixou lentamente o telemóvel.

Eles não só a estavam a expulsar. Estavam a apagar todos os vestígios da sua vida.

A visão escureceu. Deu um passo em falso — e alguém a agarrou pelo braço.

— Cuidado! — um homem desconhecido impediu-a de cair. — Está tudo bem consigo?

Nina olhou para ele com um olhar vazio.

— Não. Nada bem.

Libertou a mão e afastou-se, andando sem destino.

Algures na cidade estava um homem que ainda ontem lhe jurava amor eterno.

E agora ela tinha apenas uma pergunta:

Como é que ele ousou?

Nina vagueava pela cidade adormecida, sem sentir o frio nem o tempo a passar. As pernas levaram-na até ao velho parque, onde ela e Sergey costumavam passear nos primeiros anos de casamento. Sentou-se num banco gelado e tirou o telemóvel.

Bateria — 7%.

Ela abriu o armazenamento na nuvem. Login… palavra-passe… «Senha incorreta». Tentou de novo — o mesmo erro.

— Maldição!

Ele tinha mudado todas as senhas.

Mas no bolso do casaco estava o telemóvel antigo, aquele que ela levava para as viagens como reserva. Com as mãos a tremer, Nina tirou-o e ligou-o.

Mensagens antigas. Fotografias.

Começou a percorrer a conversa com Sergey dos últimos meses.

— Estava tudo bem… — murmurava. — Até há pouco tempo…

Depois abriu a galeria.

Fotos das últimas férias. Sergey a abraçá-la, os dois a sorrir. Apenas três meses atrás.

— Quando foi que deixaste de me amar?..

De repente, num dos álbuns, reparou num screenshot estranho. Data — há duas semanas.

Era um excerto de uma conversa num mensageiro.

Olga: «Quando é que ela desaparece finalmente das nossas vidas?»
Sergey: «Em breve. Está tudo preparado.»

Nina fitava o ecrã, incrédula.

— O que… o que é isto?

Não se lembrava de ter feito aquela captura.

Deslizou mais. Outro screenshot.

Sergey: «Os documentos estão prontos. O notário é nosso.»
Olga: «E se ela começar a resistir?»
Sergey: «Não vai. Sei como a quebrar.»

Nina levantou-se bruscamente do banco.

— Meu Deus…

Abriu o registo de chamadas. No último mês — dezenas de chamadas entre Sergey e Olga. Mais do que ele lhe ligara a ela.

De repente, o telefone vibrou. Era a mãe.

— Estou?

— Nina, onde estás?! — a voz aflita. — O Sergey acabou de ligar, a perguntar se estavas comigo!

— O que é que ele disse?

— Que vocês discutiram, que fugiste… Ele parecia tão preocupado!

Nina soltou uma gargalhada amarga.

— Mãe, ele pediu o divórcio. Falsificou a minha assinatura. Expulsou-me de casa.

— O quê?! — a mãe arquejou. — Mas… ele disse que…

— Ele mente. Está a mentir em tudo.

— Vem para minha casa! Já!

— Não. — Nina apertou o telefone com firmeza. — Eu fico.

Desligou e voltou a olhar para o ecrã.

Bateria — 3%.

Uma última hipótese.

Nina abriu o mapa e encontrou o endereço do notário que tinha autenticado a «sua» assinatura. Apenas vinte minutos a pé.

— O nosso notário… — murmurou.

O telefone apagou-se.

Nina respirou fundo o ar gelado e começou a andar.

Já não era a mulher ingénua de antes.

Agora ia para a guerra.

Nina estava diante do espelho na casa de banho de um café aberto 24 horas, onde entrou para recuperar forças. Olheiras escuras, cabelo desgrenhado — mal reconhecia o próprio reflexo. Da mala tirou um gravador comprado à pressa numa loja e verificou a bateria.

— Vai funcionar… tem de funcionar…

Marcou o número de Olga. Atenderam ao quinto toque.

— Então, mudaste de ideias? — a voz sarcástica da cunhada.

— Preciso das minhas coisas, — disse Nina num tom neutro. — Pelo menos os documentos.

— Vem amanhã. De dia. O Sergey vai estar a trabalhar.

— Vou hoje. Dentro de uma hora.

— Ouviste o que eu disse?..

— Caso contrário, venho com a polícia. Tenho direito a levar os meus pertences pessoais.

Silêncio.

— Está bem. Vem.

Às nove em ponto, Nina estava à porta do que fora — e já não era — o seu apartamento. Na mão, apertava uma velha chave que Sergey um dia tinha esquecido na sua mala.

Olga abriu a porta.

— Rápido e sem cenas, combinado?

Nina entrou sem dizer uma palavra. O apartamento cheirava a um perfume estranho e a comida que ela nunca cozinhara.

— Onde está o Sergey?

— Saiu em negócios.

Nina foi para o quarto e ali o choque — na parede já pendiam fotografias de Olga e Sergey. Como se fossem casal há muito tempo.

— Não te demores, — disse Olga, cruzando os braços na ombreira.

Nina abriu o roupeiro e começou a encher a mala com o que restava das suas coisas. Nesse instante, reparou na mesa-de-cabeceira — o telefone de Sergey.

— Ele esqueceu-se…

— Não mexas! — Olga avançou bruscamente.

— Preciso do meu antigo número, — Nina pegou rapidamente no telemóvel. — Vou transferi-lo para outro cartão SIM.

Saiu para o corredor, fingindo procurar algo nas definições. Na verdade, os dedos voavam pelo ecrã:

Abrir a aplicação de mensagens… encontrar o chat com Olga… screenshots… enviar para si própria…

— O que estás a fazer?! — Olga arrancou-lhe o telefone das mãos.

— Já está, — Nina baixou a mão para o bolso, confirmando se o gravador tinha captado tudo.

Olga olhou-a com desconfiança.

— Estás a tramar alguma coisa.

— Só estou a levar o que é meu.

— Teu? — Olga riu com desprezo. — Não tens nada teu. Até essa mala foi o Sergey que comprou.

Nina sentiu o veneno a espalhar-se-lhe pelo corpo.

— Porquê? — perguntou, quase em sussurro. — Porque é que fizeram isto comigo?

Olga aproximou-se devagar.

— Porque nunca estiveste à altura dele. Porque eu conheço-o desde sempre. Porque… — sorriu — ele finalmente percebeu isso.

Nina cerrou os punhos.

— Vocês… vocês os dois…

— Ah, finalmente percebeste! — Olga riu alto. — Sim, sempre nos amámos. Tu foste apenas um capricho passageiro.

Nesse momento, a campainha tocou.

Olga franziu o sobrolho e foi abrir.

Nina ficou sozinha no quarto. Tinha menos de um minuto.

Correu para a mesa-de-cabeceira, agarrou nos documentos e começou a fotografá-los rapidamente com o telemóvel.

Contrato de compra e venda… apólice de seguro… o que mais…

— Nina?! — a voz de Olga ecoou do corredor. — Mentiste-me! Disseste que não ias à polícia!

Nina virou-se e viu dois polícias à porta.

— Eu não chamei ninguém…

— Esta senhora afirmou que retêm os pertences dela, — disse o agente mais velho.

Olga ficou vermelha.

— Ela está a men…

— Está tudo bem, — disse Nina, pegando na mala. — Já tenho o essencial.

Passou por Olga sem lhe dar ouvidos, acompanhada pelos polícias.

— Obrigada por terem vindo. Posso ir-me embora.

Na rua, um dos agentes perguntou:

— Precisa de alojamento? Podemos levá-la…

— Não, obrigada. Tenho onde ficar.

Quando o carro da polícia se afastou, Nina tirou o telefone e verificou os ficheiros enviados.

Tudo estava ali.

As provas.

As confissões.

E agora — o plano de vingança.

Durante três dias, Nina viveu num hotel barato, sem sair do quarto. O portátil estava coberto de separadores abertos: leis sobre falsificação de documentos, artigos sobre fraude em divórcios, fóruns de advogados.

Na mesa, espalhados, estavam os prints da conversa de Sergey e Olga, fotografias dos documentos, a gravação da conversa.

Nina carregou em «publicar».

As redes sociais explodiram num instante.

«O meu marido e a irmã dele roubaram-me a vida» — o título do post acompanhava todas as provas reunidas. Ela marcou páginas populares, organizações de direitos humanos, órgãos de comunicação locais.

Dois minutos depois, o telefone vibrou. Número desconhecido.

— Estou?

— É a Nina Sokolova? – a voz feminina soava aflita. – Sou jornalista das «Notícias da Cidade». A sua história… é chocante. Queremos fazer uma reportagem.

— Sim, – respondeu Nina com firmeza. – E ainda tenho mais.

Ao fim da tarde, a sua história tinha sido partilhada dezenas de milhares de vezes. Os comentários fervilhavam de indignação:

«Isto é crime!»

«Como se atrevem?!»

«Nina, estamos contigo!»

Às sete da tarde tocou o telefone que ela esperava. Sergey.

— Tu estás completamente louca?! – a voz dele era rouca de raiva. – Destruíste a minha reputação!

— E tu – a minha vida, – respondeu Nina, fria.

— Apaga essa publicação! Já!

— Não.

— Vou processar-te por difamação!

— Processa. E explica também ao tribunal como a tua “irmã” se tornou tua amante.

Silêncio pesado do outro lado da linha.

— Tu… tu não vais conseguir provar nada…

— Liga a televisão, – disse Nina e desligou.

No ecrã do canal de notícias local já passava a reportagem:

«…história chocante de um divórcio na nossa cidade. Segundo a redação, a polícia já recebeu uma queixa por possível falsificação de documentos…»

A câmara mostrava a publicação dela, os rostos de Sergey e Olga desfocados, comentários indignados de advogados.

O telefone de Nina fervia com mensagens. Ex-colegas, amigas, até conhecidos antigos – todos a escrever palavras de apoio.

Mas o mais importante chegou uma hora depois – um e-mail do advogado:

«Senhora Sokolova, com base nas provas apresentadas, estamos a preparar uma ação para anular o processo de divórcio. Recomendamos também apresentar uma queixa-crime por fraude.»

Nina fechou os olhos. Primeira vitória.

De repente, a campainha.

Aproximou-se cautelosamente do olho mágico – no corredor estava um homem desconhecido, de óculos.

— Nina Viktorovna? Sou repórter da “Crónica da Noite”. Posso fazer-lhe algumas perguntas?

— Não, – disse firme através da porta. – Tudo o que tinha para dizer está na publicação.

Quando o jornalista se foi embora, Nina encostou-se à parede e deslizou para o chão.

As lágrimas corriam sozinhas – não de dor, mas de um estranho alívio.

Ela já não era vítima.

Agora toda a cidade sabia a verdade.

E amanhã começaria a guerra no tribunal.

Sala de audiências nº 14 estava cheia.
Nina sentava-se à mesa do lado do autor, apertando a pasta de documentos. Do outro lado, Sergey e Olga cochichavam com o advogado.

— De pé, o tribunal vai começar!

A juíza – uma mulher severa de cerca de cinquenta anos – começou a ler o caso.

— Analisa-se o pedido de Nina Viktorovna Sokolova para anular o processo de divórcio…

Nina lançou um olhar furtivo a Sergey. Ele estava pálido, com olheiras profundas.

— Senhora Sokolova, as suas provas?

O advogado dela levantou-se:

— Temos a perícia caligráfica. A assinatura nos documentos de divórcio é falsificada.

Um murmúrio percorreu a sala.

— Apresentamos também a troca de mensagens do réu com Olga Viktorovna Luzhkova, onde é discutido o plano de privar ilegalmente a minha cliente de casa e recursos…

Sergey saltou da cadeira:

— Isto é invasão de privacidade!

— Sente-se! — disse a juíza, cortante.

O advogado prosseguiu:

— E, por último, a gravação onde a senhora Luzhkova admite a falsificação dos documentos.

Olga, ao lado de Sergey, explodiu:

— É uma provocação!

A juíza bateu com o martelo:

— Silêncio!

O interrogatório durou três horas. Sergey contradizia-se, Olga gritava «calúnia».

Quando a juíza se retirou para deliberar, Nina saiu para o corredor.

Um jornalista aproximou-se:

— Nina Viktorovna, qual é a sua opinião…

— Sem comentários.

Ela virou-se para a janela.

Quarenta minutos depois, voltaram à sala.

— Decisão do tribunal, — disse a juíza, colocando os óculos. — O processo de divórcio é declarado nulo. Todos os bens comuns serão partilhados. Quanto à falsificação de documentos, o caso é remetido às autoridades competentes.

Nina fechou os olhos.

— Além disso, — continuou a juíza, — tendo em conta as provas apresentadas, o tribunal recomenda ao Ministério Público abrir um processo-crime por fraude.

Sergey gritou:

— Ela inventou tudo! É vingança!

Olga chorava, escondendo o rosto nas mãos.

Quando o martelo bateu pela última vez, Nina saiu calmamente.

Nos degraus, esperava uma multidão de jornalistas.

— Está satisfeita com a decisão?
— Vai pedir um novo divórcio?
— O que sente pelo ex-marido?

Nina parou e virou-se para as câmaras.

— Sinto alívio.

Desceu até ao táxi que a esperava.

O telefone vibrou. Número desconhecido.

— Estou?

— Nina Viktorovna? — voz feminina. — Sou a investigadora Petrova. Precisamos de mais depoimentos para o seu processo.

— Claro, estou pronta a colaborar.

Guardou o telefone na mala e olhou pela janela.

A cidade passava diante dos olhos — a mesma onde, até ontem, era ninguém.

O telefone vibrou novamente. Uma SMS:

«Pensaste que era o fim?»

Nina guardou-o calmamente no bolso.

O táxi virou para a sua rua.

A vida verdadeira estava apenas a começar.

Seis meses depois

Nina estava diante do espelho do novo apartamento, ajeitando a gola da blusa. Hoje — a primeira sessão do processo criminal contra Sergey e Olga.

O telefone tocou.

— Estou?

— Nina, é a Marina da redação. Ainda não mudou de ideias sobre a entrevista?

— Não, — respondeu firme. — Já disse tudo o que queria.

Desligou e pegou no envelope em cima da mesa. Dentro — a decisão do tribunal sobre a divisão dos bens e o extrato bancário mais recente.

Indemnização por danos morais.

Dinheiro da venda do apartamento.

E uma nova vida.

À porta, o advogado esperava.

— Pronta?

Nina acenou e deu um passo em frente.

Nos últimos seis meses, reuniu os pedaços da sua vida.

Agora era hora de mostrar que uma mulher quebrada não se vence.

E o telefone no bolso vibrou outra vez.

Mas desta vez, ela nem olhou para o ecrã.

Que adivinhem.

Ela já não era a mesma.

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