— Já não se consegue respirar e a tua mãe decidiu trazer mais alguém para cá? — disse a esposa com irritação.

— A Sasha contou-nos que queres comprar um apartamento às escondidas. Como se chama isso? És dona única?

— De maneira nenhuma. A Sasha e eu queremos comprar um apartamento em conjunto para os dois. Por que “dona única”?

A Sasha e a Lena tinham vinte e quatro anos quando se casaram. Jovens, apaixonados, com grandes esperanças e… um orçamento pequeno. Ainda não tinham um apartamento próprio, e depois do casamento parecia absurdo cada um ir para um canto diferente. Então a Sasha sugeriu:

— Vamos morar na casa da minha mãe. Eles têm três quartos. Nós num, os pais noutro. Vai correr tudo bem.

Lena hesitou, mas o amor, como se sabe, abafa qualquer senso comum. E Ludmila Ivanovna, ao primeiro encontro, parecia bondosa e sorridente. Doces, chá com compota caseira, abraços calorosos — parecia a sogra ideal. Dmitri Anatolyevich, embora fosse um homem contido, aceitou a nora de imediato.

No início tudo correu bem. Lena esforçava-se por não invadir territórios alheios, ajudava nas tarefas domésticas, lavava o chão, cozinhava. Ludmila Ivanovna, por vezes, pegava-lhe no braço, contava histórias da família e partilhava receitas. Além disso, Lena e a Sasha não faziam barulho à noite e sempre se recolhiam ao quarto antes das onze, para não incomodar os pais e deixar que fizessem as suas coisas.

Mas passaram seis meses — e Lena começou a notar que os limites estavam a desaparecer gradualmente. A sogra começou a entrar no quarto sem bater, mexia nas coisas do armário deles quando Lena e a Sasha não estavam em casa. Podia até começar a lavar os pratos que Lena acabara de lavar. E a Sasha estava sempre a desvalorizar: “Tens de aturar. São os meus pais.”

Passado um ano, Lena começou a pensar em comprar o seu próprio apartamento. Ainda por cima, os pais tinham vendido recentemente a antiga casa de campo da avó e prometeram dar-lhe o dinheiro obtido para investir na compra de um apartamento.

Ao mesmo tempo, há um mês, Ludmila Ivanovna anunciou alegremente durante o jantar:

— A Marina vem cá. A minha sobrinha da aldeia. Quer entrar na universidade, mas ainda não entrou — não tem onde morar. Por isso vai ficar connosco uma ou duas semanas.

Sasha acenou sem tirar os olhos do jantar. Lena ouviu em silêncio as histórias da sogra sobre como a sobrinha era maravilhosa. Mas todas essas histórias se revelaram vazias quando Marina apareceu na porta com cabelo rosa vivo e maquiagem forte. Trazia duas malas com coisas. Colocaram-na na sala. Passava os dias inteiros no telemóvel, parecia que nada mais lhe interessava.

Lena olhou para aquilo e acalmou-se. Uma rapariga como outra qualquer, nada de especial. O único incómodo eram as conversas noturnas de Marina por videochamada. Podia falar sem parar durante horas, e isso ouvia-se através das paredes finas do prédio.

Recentemente, quando Lena voltou do trabalho, ouviu a sogra a falar ao telefone:

— Claro, Valechka! Que questões! Venham!

E então Lena ficou em alerta. Esse “venham” não soava como um convite para jantar. E estava certa. Dois dias depois, mudou-se para o apartamento a irmã de Ludmila Ivanovna — Valentina.

— Esta é a minha irmã, Valentina Ivanovna — dizia a sogra, radiante, apresentando-a à nora. — Não podia deixar a Marininha sozinha aqui. Então veio ela também.

Valentina Ivanovna era o oposto completo da filha — barulhenta e ruidosa. Na primeira noite, Lena deitou-se com a almofada sobre a cabeça — as duas irmãs discutiam a família na cozinha, riam e choravam. Tudo até às duas da manhã.

Lena acordou com o alarme a vibrar. Sentia que não tinha dormido nada. Quando foi à cozinha, viu Sasha a beber café e a olhar para o telemóvel. Lena soltou um suspiro alto e sentou-se ao lado dele. Do outro lado da parede ouvia-se o ronco.

— Já não se consegue respirar e a tua mãe decidiu trazer mais alguém para cá? — disse Lena com irritação.

— Sim… é verdade… a tia Valya vem cá frequentemente — respondeu o marido.

— “Frequentemente”, mas no último ano foi a primeira vez.

— Não faz mal. Vai embora em breve… Não te preocupes — tentou Sasha acalmar a esposa.

— Tomara…

Mas a segunda, terceira, quarta noite — tudo se repetiu exatamente. Lena já não só não dormia — ia trabalhar com olheiras e mal conseguia cumprir todas as tarefas do dia. Sasha achava que era apenas “um incómodo temporário”. Ele próprio jogava no computador à noite e estava calmo como uma pedra.

Lena suportava em silêncio — não era posição dela para impor regras numa casa alheia. A única coisa que podia fazer era sugerir ao marido avançar e comprar um apartamento. Mesmo que fosse a crédito, seria deles. Às vezes, só queria estar em silêncio no seu próprio espaço.

Ela insistia na compra, mas Sasha continuava a ignorar. Passara a vida no apartamento dos pais e qualquer novidade assustava-o. Então Lena disse que procuraria opções por si própria.

Lena decidiu que, se Sasha não podia assumir a responsabilidade, ela faria tudo sozinha. Primeiro, durante a pausa do almoço no trabalho, folheava anúncios no telemóvel; em casa, antes de dormir. Pequenos apartamentos de um quarto nos arredores, sem grandes renovações, mas com uma possibilidade real de compra. Ali, ninguém entraria sem bater e impor regras.

Para Lena, comprar um apartamento era uma continuação lógica do casamento. E numa certa noite, enquanto tomava chá, disse diretamente ao marido:

— Comecei a procurar opções. Podemos comprar um pequeno T1 em bairros antigos.

Sasha bocejou e abanou a mão:

— Faz o que quiseres. Não te vou convencer.

Lena não disse nada. A mãe dela, Svetlana Viktorovna, já tinha feito um mês antes a doação do dinheiro que recebeu com a venda da antiga casa de campo da avó. Para a entrada inicial, era suficiente.

— Tenho dinheiro para a entrada — disse Lena na semana seguinte, entregando ao marido uma impressão de um anúncio de um pequeno apartamento num prédio de cinco andares. — O resto fazemos em crédito habitação e pagamos juntos.

Sasha ficou surpreso:

— De onde?

— A mãe deu. Não importa. O principal é que podemos. Chega de andar a viver como inquilinos.

— Eu não me sinto inquilino. Só tu é que tens problemas com isso…

— Somos um casal e devemos fazer tudo em conjunto. Ou vais viver com a tua mãe até à velhice?

Ele não sabia o que responder, mas nos seus olhos passou um vislumbre de aprovação. No entanto, a notícia não permaneceu por muito tempo só entre eles. Alguns dias depois, quando Lena se atrasou no trabalho, Sasha chegou mais cedo a casa e apanhou diretamente Valentina Ivanovna, que esperava por “novidades frescas”.

— Então, Sashenka, como vai a vida de casados? Conta lá, sem vergonha. Enquanto a Lena não está, podes dizer a verdade — riu-se, batendo-lhe no ombro.

— Está tudo bem. Só que queremos comprar um apartamento — disse ele de forma descuidada, sem imaginar o rebuliço que aquela frase causaria.

— O quê?! — exclamaram quase ao mesmo tempo as duas irmãs.

— Ficaste louco?! — Ludmila Ivanovna agarrou-se ao peito. — Para onde queres ir?! Nós temos tudo! Um T3, luz, água, aquecimento! Para que querem mudar?! Aqui há espaço de sobra! Ninguém vos incomoda!

— Sim, claro — acrescentou Valentina Ivanovna. — Sabes porque a tua Lena quer isso? Para te largar depois e andar a namorar outro homem na própria casa! Hoje em dia é assim, só recebem casa e… adeus, querido!

— Mãe, tia Valya… — começou Sasha, mas foi interrompido pelos monólogos excitados, suspiros e suposições.

Naquela noite, ao voltar a casa, Lena encontrou na cozinha um “conselho familiar”. Os três voltaram-se para ela ao mesmo tempo. E naquele momento, Lena percebeu que algo estava errado.

— Sashenka contou-nos que queres comprar um apartamento às escondidas. Como se chama isso? És dona única?

— De maneira nenhuma. A Sasha e eu queremos comprar um apartamento em conjunto para os dois. Por que “dona única”?

— Conhecemos dessas! — gritou Valentina Ivanovna. — Só entra na porta e já começa a fazer o que quer!

— Não percebo o que isto tem a ver com o apartamento. E qual a relação desta frase comigo?

— A relação é direta! — interveio Ludmila Ivanovna. — O Sashenka vai pagar o apartamento e tu vais viver confortavelmente.

Lena percebeu que não haveria diálogo construtivo. Sentou-se calmamente na cadeira e apoiou os braços na mesa.

— Tenho dinheiro. Poupei antes do casamento com o vosso filho, se quisermos ser honestos. Além disso, os meus pais ajudaram financeiramente. Mas, se quiserem, posso colocar o apartamento só em meu nome, já que o Sasha, pelo que percebo, sempre tem para onde voltar.

As mulheres ficaram momentaneamente em choque, e Sasha interveio:

— Mãe, já planejávamos esta compra há algum tempo. Por isso, apenas alegrem-se por nós. Ainda por cima, agora há realmente muita gente em casa.

— O quê? — Valentina Ivanovna saltou. — Estás a insinuar isso sobre mim e a Marininha? Como é que te ocorre dizer uma coisa dessas?!

Lena, percebendo que o escândalo era inevitável, levantou-se e foi para o quarto começar a arrumar as suas coisas, enquanto Sasha ainda tentava defender-se:

— Pensei que vocês suspirariam de alívio se saíssemos. Ainda por cima, a Marina não conseguiu lugar no dormitório. E ainda lhe faltam quatro anos de estudos…

Valentina Ivanovna calou-se abruptamente e não disse mais nada.

Sasha entrou no quarto enquanto Lena arrumava a mala. Ela nem se virou — ouvia os passos dele e sabia que ou começaria mais uma discussão ou um monólogo sobre como ela complicava tudo. Mas aconteceu algo inesperado.

— Ajudar? — perguntou ele baixinho, sentando-se ao lado dela e abrindo a porta do armário.

Lena franziu a testa e olhou surpresa para o marido.

— Diz-me onde está a segunda mala? — explicou Sasha. — É que… tens razão. Precisamos de viver separados…

— Não queria sair assim — confessou Lena. — Mas os teus familiares se voltaram contra mim e senti-me sufocada com a pressão deles. Por isso pensei que devia ir…

— Entendo… Mas tu também me compreende. Afinal, vivi aqui toda a minha vida. Achava que era assim que devia ser — todos juntos, apertados, barulhentos, mas com amor. Mas já não há amor aqui. Só ressentimentos e pequenas farpas. E a tua mãe também se pode perceber: ela gosta de ter todos perto. E a tia Valya… — ele fez uma careta. — isso é outro assunto.

Ele silenciou-se por um momento, e depois acrescentou:

— Eu também estava a poupar. Pensava em trocar de carro ou fazer obras no apartamento dos nossos pais, já que também vivemos aqui. Mas, para ser sincero, estou pronto para investir. Mesmo num prédio antigo, mesmo com más condições, mas — um apartamento nosso, onde não teremos que cumprir exigências alheias. Talvez eu esteja a ficar velho — riu-se Sasha.

— Não velho, mas maduro. É completamente diferente.

Lena sentiu que não estava sozinha. Embora, nos últimos trinta minutos, a sua mente tivesse passado pelos cenários mais desagradáveis. E, afinal, havia mesmo um parceiro ao lado, um marido, e não apenas um habitante passivo do apartamento dos pais. Uma lágrima surgiu nos seus olhos, mas Lena desviou o rosto, como se estivesse a pensar na melhor forma de arrumar os livros.

Quando Sasha saiu para o corredor com a mala na mão, instalou-se um silêncio ameaçador. Nem a mãe nem Valentina Ivanovna se opuseram. Apenas observavam de soslaio cada movimento de Sasha e Lena.

— Vamos sair. Durante umas semanas vamos ficar na casa de um amigo na aldeia — disse ele — e depois mudamo-nos para o novo apartamento.

— E não contes com a nossa presença na mudança — resmungou Ludmila Ivanovna.

— Como desejarem — respondeu Lena, acenando.

Quando todas as malas e sacos foram para o corredor, Lena pegou no casaco que não cabia na mala. Sasha calçava os sapatos e parecia que, num instante, finalmente iriam deixar o apartamento que, nos últimos tempos, tinha-se tornado para Lena mais um lugar de provações do que um lar.

Mas, nesse momento, a porta de entrada abriu-se com estrondo.

— Olá a todos! — exclamou Marina alegremente, entrando como um turbilhão. — Conheçam o Maxim. Ele vai viver comigo.

Atrás dela entrou um jovem de cerca de vinte anos: com piercings na sobrancelha e no nariz, as laterais da cabeça rapadas, casaco de ganga rasgado e ténis gastos. Tinha uma mochila de desporto ao ombro e um saco de supermercado nas mãos.

— Agora estamos juntos — disse Marina com orgulho. — O Maxim tem problemas: os pais expulsaram-no de casa porque não entrou na universidade. Por isso, vai ficar connosco, está bem?

Por um instante, instalou-se um silêncio total no apartamento. Ludmila Ivanovna e Valentina Ivanovna olharam fixamente para o recém-chegado “hóspede”, como se tivesse caído do teto. Os seus bocas abriram-se ligeiramente, espantadas.

Lena olhou para Sasha. Depois para Ludmila Ivanovna, Valentina Ivanovna e, finalmente, para Marina e Maxim. E, sem se conter, bufou e depois começou a rir. Primeiro baixinho, depois cada vez mais alto.

— Lena, o que se passa? — perguntou Sasha, surpreso.

— Nada — disse ela, rindo-se. — Só parece que estamos a sair no momento mais apropriado.

Com essas palavras, avançou, passou por Marina e Maxim como se fossem mobiliário, e puxou decisivamente a porta de entrada. Sasha seguiu-a, acenando à mãe:

— Mãe, eu ligo.

Os passos deles silenciaram-se no hall, e ficaram no apartamento quatro pessoas: duas familiares mais velhas, Marina e Maxim, que, como se nada fosse, já se tinha descalçado e dirigido para a cozinha.

— Têm algo para comer? — perguntou ele, remexendo numa gaveta.

Ludmila Ivanovna sentou-se num banco.

— Meu Deus, o que se passa… — sussurrou.

E Valentina Ivanovna apenas ficou de pé, sem conseguir dizer uma palavra.

Durante as duas semanas seguintes, Lena e Sasha percorreram a cidade, visitando mais de uma dezena de apartamentos. Alguns ficavam demasiado longe, outros precisavam de obras profundas, e havia opções que lhes davam vontade de fugir. Mas um apartamento agradou-lhes de imediato: um T1 acolhedor num prédio antigo, com um pátio calmo, entrada limpa e janelas viradas para uma alameda verde. Por dentro — simples mas limpo, canalização nova e cozinha luminosa.

Trocaram olhares ao entrar no hall. A decisão surgiu naturalmente.

O dinheiro chegava para quase metade do valor — um alívio. Lena antecipava o pior. O restante seria financiado com crédito habitação, e, como ela disse, “melhor pagar ao banco do que sufocar debaixo do mesmo teto que as tias”.

Enquanto tratavam da papelada e do registo, mudaram-se para a casa de campo de um amigo de Sasha. Era tranquilo, rodeado apenas de floresta, pássaros e ar fresco. O único inconveniente era que demoravam pelo menos uma hora até à cidade. Mas parecia pouco — em breve, tudo mudaria.

E, um mês depois, mudaram-se definitivamente. Na primeira noite dormiram num colchão insuflável, comeram raviolis com ketchup e não podiam acreditar que aquele pequeno apartamento era agora deles.

Não fizeram festa de inauguração. Apenas começaram a organizar a vida. Compraram um sofá, uma estante e utensílios de cozinha necessários. Lena colocou flores no peitoril da janela, e Sasha pendurou ganchos para casacos no corredor.

Enquanto isso, no antigo apartamento, a vida seguia o seu rumo. O quarto de Sasha passou a ser ocupado por Marina e Maxim. Ludmila Ivanovna já não conseguia acompanhar a ordem, porque agora havia que cozinhar para cinco pessoas. Valentina Ivanovna continuava a repetir: “Só por pouco tempo…” — mas já passavam três meses. Maxim estava na cozinha a tocar guitarra, enquanto Marina transmitia horas no TikTok.

Ludmila Ivanovna lembrava-se cada vez mais da nora tranquila e obediente, que cozinhava sopas, lavava roupa e nunca deixava migalhas na mesa. Mas agora tudo era diferente.

E Lena, por sua vez, olhou pela janela de manhã e sorriu para o novo dia quente. Sabia que comprar o apartamento tinha sido a decisão certa. E, mesmo que a remodelação ainda não estivesse concluída, e que o crédito fosse para quinze anos, finalmente ali era possível respirar livremente e fazer apenas o que desejasse.

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