Os pais passaram o apartamento grande para o nome da minha irmã — e eu decidi não atender mais o telefone, por mais que me ligassem.

Os pais passaram o apartamento grande para o nome da minha irmã — e eu decidi não atender mais o telefone, por mais que me ligassem.

— Mãe, o que é isto?
O contrato de doação treme nas minhas mãos. A mãe fica imóvel diante do fogão, mas não se vira.
— O quê — o quê?

— O apartamento está em nome da Olívia?
Há quinze anos mudei-me para casa dos meus pais por um mês — para ajudar com o pai depois do AVC. A Olívia tinha acabado de ir para a Alemanha em busca de uma nova vida. O mês transformou-se em anos.

— Pois é. Para os impostos é melhor assim. E depois, se nos acontecer alguma coisa…
— Quando é que isso foi feito?

— Que diferença faz! — a mãe vira-se bruscamente. — Estás preocupada por causa de um papel?
Um papel. Durante quinze anos pensei que vivia na casa dos meus pais.
— Leninha, onde estão as gotas do pai?

Uma manhã normal. Fecho o portátil — já trabalho em casa há dez anos, comunico com o escritório por videochamada. Não pode ser de outra forma — o pai precisa de injeções de quatro em quatro horas.

— Estão na caixa de medicamentos, mãe.
— E o almoço está pronto?
— Estou a preparar.

O pai está sentado na poltrona, a queixar-se do tempo. Desde o AVC ficou como uma criança — esquecido, caprichoso. A mãe anda sempre à volta dele, mas o peso maior cai sobre mim.

À noite telefona a Olívia. Na fotografia do telemóvel aparece bronzeada, com um sorriso branco como neve.
— Então, como estão? E o papá?

— Igual.
— Aqui o projeto está a terminar, prometeram prémio. Aliás, em breve vou aí!


A Olívia envia três mil euros de dois em dois meses para os medicamentos. Considera o dever cumprido.
Durante meio ano finjo não saber nada sobre o contrato. Mas cada pedido da mãe agora soa como ordem da dona à criada.

Em fevereiro, a Olívia liga aflita:
— Ouve, tenho problemas no trabalho. Posso ir aí um mês com a família? Descansar, pensar no que fazer.

A mãe agarra no telefone:
— Claro, querida! Vamos organizar tudo!
Depois da chamada, vira-se para mim:
— Leninha, não te custa nada viver separada um mês, pois não? Os netos ficam no teu quarto e tu… arranjas-te de alguma maneira.

Coloco devagar a chávena no lava-loiça.
— Ou seja, tenho de sair?
— Não sair, apenas ceder espaço. As crianças precisam de um quarto a sério, e tu tanto faz — o teu trabalho é remoto.

— E onde é que eu vivo?
— Arranjas um quarto alugado. Ou ficas em casa de conhecidos.
Conhecidos. Em quinze anos nunca dormi fora desta casa.
— Mãe, mas é o meu quarto…

— Leninha, não sejas egoísta! A Olívia vem tão raramente, e os netos é a primeira vez. Tu compreendes.

Compreendo. Compreendo bem de mais.
— Compreendo. Amanhã vou-me embora.


— Assim é que é! Eu sabia que ias entender.

Encontrei um estúdio em apenas um dia. Pequeno, mas meu. Pela primeira vez em quinze anos acordei em silêncio.

A mãe telefona já no segundo dia:
— Onde estão as gotas do pai?
— Na caixa dos medicamentos, na prateleira de cima.
— E o massagista, quando vem?

— Terças e sextas, às dez.
— E se ele não vier?
— Telefonas-lhe. O número está na agenda.
— Mas tu sempre trataste disso…

— Agora nem sempre.
Uma semana depois, a mãe liga a chorar:
— Está uma confusão! A Olívia trabalha no Skype todo o dia, as crianças viram tudo do avesso, e o Dieter exige comida especial! Eu não aguento!

— Pede ajuda à Olívia.
— Ela está ocupada, tem reuniões importantes!
— Eu também tenho trabalho, mãe.

Mais três dias e liga a Olívia, furiosa:
— O que é que estás a fazer? A mãe está exausta!
— E tu o que fazes? Vives no teu apartamento e não ajudas?
— Que tem o apartamento a ver? Trata-se dos pais!

— Exato. Dos teus pais no teu apartamento.
— Estás a falar a sério? Chateias-te por causa de um papel?
— Não me chateio. Tiro conclusões.

O mês acabou, mas eu não voltei. A mãe telefona todos os dias:


— A Olívia já foi embora, podes vir para casa!

— Eu já estou em casa, mãe.
— O que dizes? A tua casa é aqui!
— A minha casa é onde não me expulsam por causa de convidados.

Há uma semana deixei de atender o telefone. No atendedor, quarenta e três mensagens.
Ontem encontrei a mãe no supermercado. Estava envelhecida, abatida.
— Leninha! — chorou. — Como é que podes fazer isto? Nós somos família!…

— Família é quando todos cuidam uns dos outros. Não quando um se mata a trabalhar e os outros aproveitam.

— Mas nós amávamos-te!
— Amavam usar-me. São coisas diferentes.
— Leninha, o pai está mal! Precisa de cuidados!
— Contratem uma enfermeira. Ou então que a dona do apartamento regresse da Alemanha.

A mãe soluçou e foi-se embora. Eu fiquei a olhar para ela afastar-se. Pena? Sim. Mas pena e disposição para me sacrificar — também são coisas diferentes.

Em casa sento-me com o gato ruivo no colo. Encontrei-o no primeiro dia depois de me ter mudado — em casa era proibido ter animais, “o pai tinha alergia”. Agora o Ruivo ronrona tão alto que até os vizinhos batem na parede.

O telefone está ao meu lado. Quarenta e sete chamadas não atendidas numa semana. Ontem até a Olívia ligou — pela primeira vez em três meses.

Atendi ao trigésimo toque:

— Estou a ouvir.
— Lena! Finalmente! — a voz da Olívia era zangada e cansada. — O que é que andas a fazer? Os pais contrataram uma cuidadora por trinta mil! Eu não consigo mandar tanto dinheiro todos os meses!


— E eu não conseguia viver quinze anos sem vida própria. Mas de alguma forma vivi.

— Isso é diferente!
— Sim, é diferente. Para mim foi mais difícil.
— Lena, sê humana! Volta pelo menos a meio tempo!
— Olívia, sê humana tu. Vende o apartamento que recebeste de graça e paga pelos pais.

Silêncio. Depois os sinais de chamada.

No trabalho, os colegas já não me reconhecem. Vou ao escritório, proponho projetos, fico para os convívios da empresa. A chefe estranha:

— Lena, estás uma pessoa diferente! Antes estavas sempre com pressa de ir para casa.
— Antes esperavam-me em casa. Agora em casa espero eu.

Inscrevi-me no ginásio, em cursos de inglês. Criei uma conta num site de encontros — os homens escrevem, convidam-me. É estranho ser livre aos quarenta e cinco anos.

Anteontem a mãe voltou a telefonar. Desta vez atendi:

— Leninha, até quando! O pai está mesmo mal, e a cuidadora é uma estranha!
— Mãe, eu também me tornei uma estranha no dia em que me expulsaram do meu próprio quarto.
— Mas nós não pensámos…
— Pois é. Não pensaram. Quinze anos sem pensar.

Hoje ninguém telefonou. O silêncio é estranho, mas bom.

Estou sentada na cozinha, bebo café e afago o gato. Lá fora é primavera, o sol incide diretamente na minha mesa. O telefone não toca há três dias.

Penso: tenho pena deles? Claro que tenho. Mas ter pena e destruir-me por causa da pena — são coisas diferentes.

Ontem a Olívia mandou uma mensagem: «Chamaram a ambulância para o pai. Pensa bem no que estás a fazer».

Eu pensei. E não respondi.

Sabem o que é mais estranho? É ter coragem para não responder. Pela primeira vez em quarenta e cinco anos tenho coragem para dizer «não» àqueles que sempre esperaram ouvir apenas «sim».

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