Os bandidos atacaram o automóvel onde se encontravam o velho e a neta. Contudo, ao espreitarem debaixo do vestido da rapariga, fugiram apavorados.

Uma manhã de domingo enevoada erguia-se sobre a aldeia de Beriózovka, como uma aguarela difusa. As folhas das bétulas sussurravam ao sabor do vento, e nas janelas da velha casinha de porta azul ainda não brilhava qualquer luz. Mas nesse dia, Arkádi Pétrovitch acordou antes dos galos. Sonhara um pesadelo: estava de pé à beira de um precipício e, lá em baixo, no nevoeiro cerrado, chamava-o a sua neta Alissa.
A voz dela tremia como uma corda ao vento. O ancião abriu os olhos; o coração batia-lhe descompassado, como se quisesse escapar do peito. «Alguma coisa vai acontecer…» murmurou ele, olhando para o papel de parede gretado do quarto.
No quarto ao lado, atrás da parede fina, dormia Alissa, de 24 anos. As suas botinhas com purpurinas, largadas junto à porta, recordavam o encontro da véspera com Máxim — o futuro marido dela. Arkádi Pétrovitch criara a neta sozinho, depois de a mãe, Vera, ter desaparecido das suas vidas como se tivesse sido levada por uma tempestade. Ele ensinara Alissa a ler as estrelas, a fazer compota de framboesas silvestres e a acreditar que até na floresta mais sombria há sempre uma clareira de luz.
Agora a rapariga preparava-se para partir para a cidade, e dentro dele fervilhava a amargura da solidão. No baú debaixo da cama guardava as poupanças — o dinheiro para o apartamento de Alissa. Mas doía-lhe imaginar que aquelas notas os separariam para sempre…
— Talvez venhas viver connosco, avô? — perguntava Alissa todas as semanas, abraçando-o pelo pescoço. — Temos um apartamento espaçoso, e o Máxim adora-te!

— Não, minha querida — abanava a cabeça o velho, escondendo o tremor nas mãos. — Estou enraizado nesta terra. A cidade não é para mim.
Mas nesse dia a inquietação não o largava. Enquanto Alissa dormia, Arkádi Pétrovitch rachou lenha, acendeu o fogão e cozeu um pudim de maçã — o prato preferido dela. O aroma da canela e da massa quente encheu a casa, mas o avô deteve-se de repente à janela. No parapeito jazia um medalhão baço — presente da Verotchka, a mãe dela. «Tonteira», pensou ele, escondendo o amuleto no bolso. «Não é hora de remexer no passado».
— Uau! — Alissa entrou a correr na cozinha de robe cor-de-rosa, as tranças desgrenhadas caíam-lhe pelos ombros. — Avô, tu és um feiticeiro! Basta um aceno da tua mão e o pequeno-almoço está pronto!
Abraçou-o, e o velho sentiu o coração dela bater em uníssono com o seu.
Depois do pequeno-almoço, partiram no “Jiguli” dos anos 90, coberto de ferrugem como a carapaça de uma tartaruga. Alissa, enrolada no cachecol, adormeceu com a cabeça pousada no ombro do avô. «Como naquela vez…» recordou Arkádi Pétrovitch, lembrando-se de quando, doze anos antes, a levava do hospital, após ela ter vencido uma pneumonia. Nessa noite, rezara sem parar, segurando nas mãos febris da menina.
De súbito — um embate! O carro estremeceu como um veado atingido. Um “Gelandewagen” preto abalroara por trás, e dele saltaram três homens. Os rostos escondidos por máscaras, mas os olhos — frios como lâminas de faca.
— Sai daí, velho! — rosnou o chefe, escancarando a porta.
Arkádi Pétrovitch ficou imóvel. No retrovisor brilhou a imagem de um dos bandidos a agarrar Alissa pelos cabelos…
— Onde está o dinheiro?! — rugiu o homem, sacudindo o velho pelo colarinho. — Ontem vi-te no banco por ele!
— Que dinheiro? Foi a pensão que levantei…
— Não mintas! — O murro atingiu-lhe o maxilar. O ancião sentiu o gosto a sangue.
Alissa gritou quando dedos estranhos se cravaram no seu pulso. Um dos assaltantes abriu o fecho do casaco dela e, de repente… imobilizou-se. Os olhos arregalaram-se-lhe, como se tivesse visto um fantasma.
— Isso… isso que tens aí? — murmurou, apontando o dedo para o peito de Alissa.
No pescoço dela, por baixo da camisola, brilhava um medalhão em forma de lua — idêntico ao que o próprio bandido trazia ao pescoço.
— O quê? — perguntou Alissa, assustada, tentando cobrir o peito.
— O amuleto! — berrou o homem, recuando. — Onde o encontraste?!
Arkádi Pétrovitch, aproveitando o momento de confusão, libertou-se e correu para o meio da estrada. Os braços erguidos ao céu, a voz a rasgar-se num grito:
— Socorro! Vão matar-nos!
Felizmente, da curva surgiu um Ford branco. O condutor travou bruscamente, e os bandidos, praguejando, correram para o seu carro. A última coisa que o avô ouviu foi o silvar dos pneus e o brado do chefe:
— Vamos embora! Mas voltaremos!

À noite, no apartamento de Alissa, Máxim servia chá, tentando acalmar-lhe o tremor das mãos.
— Temos de apresentar queixa à polícia — insistia ele.
— Mas por que é que ele teve medo do meu amuleto? — Alissa apertava o colar na mão. — Isto não foi acaso…
Na manhã seguinte, as notícias informaram: três assaltantes tinham sido detidos junto à estação. Alissa saltou do sofá quando no ecrã apareceu o rosto do chefe — um homem alto, com uma cicatriz na face. No peito, por baixo da camisa aberta, brilhava um medalhão lunar.
— É ele! — gritou. — Avô, é ele!
Determinada a descobrir a verdade, Alissa foi ao orfanato n.º 12, onde, como soubera, fora criado Daniil Sokolov — o nome do assaltante. As portas do estabelecimento cheiravam a tinta velha e a medo infantil.
— O rapaz foi abandonado na maternidade — contou a diretora, folheando registos amarelados. — A mãe renunciou logo após o parto. Diziam que estava presa por furto… Chamava-se Vera. Apelido — Sokolova.
Alissa gelou. «Vera Sokolova… A minha mãe».
— E este amuleto? — perguntou, com a voz a tremer, mostrando o seu medalhão.
— Ah, não me recordo bem… — suspirou a mulher. — Mas lembro-me de que ela tinha uma corrente com uma lua. Confiscaram-na no momento da detenção, mas implorou para a deixarem ao filho…
De regresso a casa, Alissa voava nas asas do pavor e da esperança. Na cabeça ressoava apenas um pensamento: «Daniil é meu irmão. O avô sabia».
— Conta-me a verdade! — exigiu ela, encurralando Arkádi Pétrovitch no canto da cozinha. — Por que escondeste que eu tinha um irmão?!
O velho caiu numa cadeira, como ceifado. Os olhos escureceram, como bagas de mirtilo.
— A tua mãe… — começou ele, escolhendo as palavras com esforço. — Era luz, até a alma se lhe obscurecer. Há dezoito anos prenderam-na por assaltar uma joalharia. Na prisão deu à luz Daniil… Mas pensei que tivesse morrido! Levaram-no para o orfanato, e a Vera… — a voz quebrou-se-lhe. — Morreu de tuberculose quando tinhas cinco anos. Antes de partir escreveu uma carta: «Perdoa-me, Alissa. Deixo-te este amuleto — ele proteger-te-á da escuridão».

Alissa caiu de joelhos, apertando o medalhão contra o peito. Agora tudo fazia sentido: porque a mãe usava aquele símbolo, porque o avô temia as ruas da cidade, porque tanto se esforçava por a proteger do mal.
— E o Daniil? — murmurou ela.
— Escolheu o caminho da mãe — sorriu amargamente Arkádi Pétrovitch. — Já cumpre a terceira pena… Não o procures, minha neta. É inútil.
Mas Alissa não quis ouvir. No dia seguinte, apresentou-se no estabelecimento prisional. Do outro lado do vidro estava Daniil — magro, com sombra no olhar, mas com o mesmo recorte de olhos que o dela.
— Tu… tu és meu irmão — sussurrou, estendendo a mão contra o vidro.
Ele virou-se, mas Alissa viu-lhe os dedos apertarem o medalhão.
— A mãe pediu que te dissesse — disse ela baixinho — que vos amava a ambos. E pediu… perdão.
Daniil permaneceu em silêncio. Mas, quando ela se afastava, ouviu um murmúrio:
— Diz ao avô… obrigado por a ter salvo naquela altura.
Soube então que, muitos anos antes, Arkádi Pétrovitch resgatara Vera das mãos de um criminoso influente, mas ela regressara à antiga vida. Isso salvara Alissa, mas não Daniil.
Hoje, Alissa vive na sua casa nos arredores da cidade. Ao lado, a quinta de Arkádi Pétrovitch. Juntos plantam batatas, e à noite o avô lê ao neto, filho de Alissa e Máxim, contos sobre amuletos lunares. Às vezes alguém bate à porta. É Daniil. Cumpriu a pena, trabalha como carpinteiro e aprende a perdoar-se.
E na caixinha de Alissa repousam dois medalhões — um lunar e um solar. Um da mãe, outro do irmão. E sempre que os toca, arrepios percorrem-lhe a pele. Não de medo. De esperança.
Porque mesmo nos recantos mais sombrios da alma sempre resta uma centelha de luz. Basta estender a mão.