— Ou amanhã vamos os dois a casa da minha mãe e começamos as obras, ou… ou deixas de ser minha mulher. Escolhe: a família ou as tuas praias — declarou o marido.

Limalhas de ferro e sonhos de brisa
A oficina zunia como uma colmeia perturbada de abelhas metálicas gigantes. O cheiro de borracha aquecida e de óleo de máquina entranhava-se na pele, impregnava o cabelo; parecia que até os pensamentos cheiravam a esse fumo industrial pesado. Marina, ajustando o lenço que lhe escorregara para o lado, examinava com rigor um lote de rolamentos. O olhar, habitualmente atento e severo, toldava-se a cada instante. Diante dela, em vez do betão cinzento do chão, ondulava um turquesa; e, em vez do estridor da linha de montagem, ouvia-se o mar.
Esperara por aquelas férias durante dois anos. Dois anos de poupança, de abdicar de mais um par de sapatos, de não ir a cafés com as amigas. Turquia. “Ultra tudo incluído”. Um descanso preguiçoso ao sol — um sol que não lhe esturrica a cabeça através do capacete, mas a aquece com carinho.
No intervalo, aproximou-se dela um empilhador eléctrico. Pavel, o marido, travou com estilo, quase a bater num palete de peças defeituosas. No rosto — normalmente simples e aberto — pairava agora um sorriso estranho, inquieto.
— Marish, vens almoçar? — gritou ele, por cima do ruído da máquina.
— Vou já, Pasha. Porque é que estás tão nervoso? Aconteceu alguma coisa no armazém?
— Não, está tudo bem. Só… a mãe ligou.
Marina enrijeceu por dentro. As chamadas de Liudmila Makhovna raramente traziam algo de bom. Era uma mulher-tanque, uma mulher-bulldozer, abrindo caminho para o seu bem-estar por cima da cabeça dos familiares.
Na cantina, a picar com o garfo massa colada, Pavel acabou por soltar:
— Olha, Marin… é o seguinte. A mãe diz que, na casa de banho, os azulejos estão a descolar. E o tecto da cozinha está amarelado, tem vergonha de receber pessoas.
— E então? — Marina pousou o garfo. O apetite desapareceu de imediato, como se alguém tivesse apagado a luz no estômago.
— Pronto… ela pensou que, já que estamos de férias, talvez eu lá dê um salto? Para ajudar?
— Pasha, o voo é daqui a três dias. As viagens estão pagas. A mala está feita. Mas tu estás a falar de quê, afinal?
Pavel desviou o olhar, a fixar os riscos no tampo da mesa.
— Eu pensei… talvez possamos cancelar. Perdemos um bocadinho na comissão, mas ao menos dá para os materiais. E o mar fica para outra altura. A mãe chora, diz que apareceu bolor, que não se consegue respirar. Ela é asmática, tu sabes.
Marina olhava para o marido e já não via um companheiro — via barro mole e maleável, do qual a mãe dele moldava tudo o que lhe apetecia.
— Estás a propor-me que, em vez de hotel, vá respirar pó e carregar sacos de cimento? — a voz de Marina ficou baixa, mas nela tilintaram notas perigosas. — Nós combinámos. Eu trabalhei como uma condenada por causa desse mar.
— Lá estás tu: mar, mar! — Pavel bateu de repente com a palma na mesa. — És egoísta, Marin. A mãe está doente, pede ajuda, e a ti só te importa aquecer a barriga ao sol! Nós somos família, ou quê? Temos de ajudar a mãe. Obras são sagradas.
Sussurros “bem-intencionados”
À noite, o telemóvel de Marina ferveu. Primeiro ligou a mãe dela, Tamara Ignátievna.
— Marinochka, mas nem pensem em vir para minha casa nas férias — avisou logo, sem sequer cumprimentar. — Tenho plântulas em todas as janelas, não se consegue respirar, e ainda por cima o teu pai… o tio Kolia, lembrou-se de andar a trocar prateleiras. Enfim: desapareçam. Vão para onde queriam. Não venham para aqui chatear.
Marina sorriu com ironia. Ao menos aqui havia estabilidade. Nada de intrigas — só a vontade honesta de estar sozinha.
A seguir ligou Viktor, o irmão de Pavel.
— Marin, olá. Ouvi dizer que o nosso totó outra vez está a dançar ao som da mãe?

— Olá, Vitia. Está a tentar. Quer trocar a Turquia por massa de enchimento.
— Nem te atrevas! — rosnou ele, tão alto que Marina teve de afastar o telefone do ouvido. — No ano passado, como um idiota, passei o verão inteiro na dacha dela. “Vitia, é só arranjar o alpendre.” Pois. No fim, refiz o telhado, pus uma vedação, e ainda fiquei eu como culpado porque comprei pregos caros. Ela espreme-te até ao fim e nem pisca. E o Pashka… esse não tem coluna quando a mãe levanta a voz. Manda-os dar uma volta.
Mas o mais valioso foi a visita de Sveta, a irmã mais nova de Marina. Sveta entrou no apartamento como uma corrente de ar fresco, atirou os sapatos para o lado e foi directa à cozinha.
— Soube das novidades — disse ela, tirando da mala uma garrafa de água com gás. — O teu Pasha mudou o estado no Odnoklassniki para “A família acima de tudo”. Está a preparar-se para sacrificar as tuas férias.
— Ele quer cancelar os bilhetes, Sveta. Diz que não chega dinheiro para as obras se formos. E que a mãe tem “bolor”.
Sveta bufou, abrindo a garrafa.
— Bolor tem ela na consciência. Marin, tu és parva? Que compromissos? Tu és chefe do controlo de qualidade, vês defeito a quilómetros. O teu casamento com o Pasha agora é defeito a cem por cento. Se cedes hoje, ele vai usar-te a vida toda como se fosses um martelo pneumático.
— E eu faço o quê? Armo escândalo?
— Para quê escândalo? — Sveta semicerrrou os olhos, predadora. — A raiva, mana, é combustível. Não a gastes em gritos. Usa-a como gasolina. Que ele rebente lá com a devoção de filho exemplar. Tu vais descansar. Ponto final. E ele que faça a escolha dele. Só não chores nem supliques. Age com dureza. Ele está a achar que tu vais chorar e concordar. Surpreende-o.
O ultimato do amor filial
Em casa, a atmosfera estava espessa, como gelatina. Pavel andava pela casa com ar de mártir, a rearrumar ferramentas na caixa de forma teatral.
— Já liguei ao operador turístico — atirou ele, sem olhar para a mulher. — Amanhã de manhã vou lá e faço o pedido de reembolso. A mãe já arranjou trabalhadores, vão tirar os azulejos velhos.
Marina estava sentada no cadeirão, a folhear uma revista. Dentro dela acendia-se uma chama fria e calculista. Toda a mágoa, toda a pena de si mesma, tinham ardido — e no lugar ficara apenas uma clareza cristalina.
— Tu não vais ao operador turístico, Pasha — disse ela, tranquila.
— E porquê? — ele virou-se de repente, o rosto torcido de irritação. — Eu sou homem, eu decidi. O dinheiro é nosso.
— O dinheiro da viagem é o meu prémio e as minhas poupanças. O teu ordenado vai para a comida e para o teu carro. Já te esqueceste?
— Ah, então é assim que falamos agora! — Pavel saltou para junto dela. — A contar dinheiro? E o facto de a minha mãe me ter criado, isso não vale nada? Tu, Marin, ficaste agarrada ao dinheiro. Fria.
— Eu não sou agarrada. Eu valorizo o meu trabalho.
— Muito bem, então — Pavel inclinou-se sobre ela, tentando esmagá-la com “autoridade”. — Ou amanhã vamos os dois a casa da minha mãe e começamos as obras, ou… ou deixas de ser minha mulher. Eu não vou viver com uma traidora. Escolhe: a família ou as tuas praias.
Ele esperava lágrimas. Esperava que ela se justificasse, que murmurasse sobre o cansaço. Mas Marina levantou-se. Devagar, endireitando os ombros, fitou-o directamente na raiz do nariz com um olhar pesado e imóvel.
— Fizeste um ultimato? Muito bem. Ouvi-te.
— Assim é que é, minha menina — Pavel sorriu, convencido de que tinha vencido. — Amanhã às oito, de pé. A mãe já fez a lista de compras, temos de dar um salto ao armazém de materiais.
Foi para o quarto a assobiar um motivo qualquer, seguro da sua razão inabalável. Marina ficou na sala. Os lábios comprimiram-se numa linha fina. A raiva borbulhava-lhe na garganta, a pedir saída, mas ela empurrou-a para mais fundo, transformando-a num plano. Nada de submissão. Nada de pedidos. Só acção.
Raiva fria
A manhã não começou com o despertador. Pavel acordou porque o lado ao lado estava vazio. O lençol do lado da mulher estava frio e liso.
— Marin? — chamou ele, a coçar a barriga. — Onde estás? Fizeste café?
Silêncio.
Saiu para o corredor. A mala que estava ao pé do armário há uma semana tinha desaparecido. Também não estavam o casaco de Marina nem as sapatilhas preferidas. Em cima da mesa da cozinha havia um envelope.
Pavel rasgou o papel. Dentro estavam as chaves do apartamento e um bilhete:
“Fizeste a tua escolha, Pasha. Escolheste a tua mãe e as obras. Eu respeito a tua escolha. E eu escolhi-me a mim. O dinheiro da tua metade da viagem não dá para recuperar: a penalização é de cem por cento por cancelar na véspera do voo. Por isso, o teu lugar no avião vai vazio. Diverte-te com o reboco.
P.S. Podes deitar as chaves fora — quando eu voltar, mudo as fechaduras.”
— Que cabra! — rugiu Pavel. — Mas como é que ela se atreve! Fugiu! Abandonou!…
Ele agarrou no telemóvel e começou a marcar o número dela, mas uma voz mecânica informou que o assinante se encontrava fora da área de cobertura.
A raiva misturou-se com o pânico. Como é que ele ia explicar aquilo à mãe? Liudmila Makhovna já estava à espera de mão-de-obra. E dinheiro… dinheiro é que não havia! Marina levara todo o dinheiro vivo que guardavam numa caixinha.
— Não faz mal — sibilou Pavel, a enfiar as calças. — Ela volta de rastos. Para onde é que há de ir. A casa é nossa… Ah, não: a casa é dela, herança da avó. Que chatice!
Foi a casa da mãe. Liudmila Makhovna recebeu-o em modo de combate: roupão velho, lenço na cabeça e, na mão, uma espátula.
— E onde é que está essa pindérica? — perguntou logo, espreitando por trás dele.

— Foi-se embora, mãe. Voou. Abandonou-nos.
— Grande cobra! — a sogra abriu os braços, indignada. — Não faz mal, meu filho. Nós safamo-nos sem ela. Tu tens jeito para isto. Vá, começa a arrancar os azulejos e eu vou fazer um cházinho. Ela deixou dinheiro?
— Não, mãe. Levou tudo.
O rosto de Liudmila Makhovna alongou-se.
— Levou tudo como?! E com que é que compramos cimento? E os azulejos? E o pagamento ao homem? Eu só tenho a reforma!
— Pronto… pago do ordenado. Ou peço emprestado — resmungou Pavel.
— Vai trabalhar, desgraça — atirou a mãe, azeda. — O teu pai foi mesmo criar uma fraca figura.
Pavel, de dentes cerrados, entrou na casa de banho. A raiva contra a mulher pedia saída. Agarrou no martelo perfurador. “Eu vou mostrar-lhe”, pensou, a cravar o cinzel na parede. “Ela volta e eu tenho isto feito à maneira. Vai roer-se de inveja.”
Trabalhou com fúria, sem ver por onde ia. Os azulejos voavam para todo o lado, o pó levantava-se em nuvem. Parecia-lhe que não estava a destruir cerâmica — estava a esmagar a teimosia de Marina. Num acesso, carregou com mais força no instrumento, quando o cinzel bateu em algo duro, lá no fundo da parede.
Crac!
O som foi horrível, húmido. A seguir ouviu-se um assobio e uma jactada de água quente, forte, bateu-lhe na cara.
Parte 5. O colapso sobre as ruínas do quotidiano
— Fecha! Fecha a coluna, idiota! — guinchava Liudmila Makhovna, a correr de um lado para o outro, com água pelos tornozelos.
Pavel andava aos encontrões pelo apartamento, a escorregar no chão encharcado. A válvula da coluna estava tão enferrujada que nem mexia. A água a ferver jorrava, inundando o laminado novo do corredor, infiltrando-se para os vizinhos. O vapor encheu a casa, transformando-a num hammam — mas não daqueles de resort turco; antes um inferno.
A água só acalmou uma hora depois, quando chegou a equipa de emergência e cortou a água a todo o prédio.
Nessa altura, já os vizinhos de baixo estavam a esmurrar a porta. E não eram uns vizinhos quaisquer: era a família do procurador local, que acabara de terminar uma remodelação com estuque veneziano.
Pavel estava sentado num banco, no meio da cozinha destruída e alagada. Estava encharcado, vermelho como um camarão por causa das queimaduras e do vapor, e completamente arrasado.
— Então, filho, já acabaste as obras? — perguntou a mãe, venenosa. — Quem é que vai pagar isto agora? Eu? Eu sou reformada! Foste tu, desajeitado, que furaste o cano!
— Mãe, mas eu estava a ajudar-te…
— Ajudar?! Que grande “favor”! Mais valia teres ido com essa tua… com a tua mulher!
Nesse momento, o telemóvel de Pavel apitou. Chegara uma mensagem na aplicação. Era Marina. Uma fotografia. Nela, umas pernas bronzeadas com o mar azul-turquesa ao fundo e um copo com um cocktail laranja, cheio de gotículas.
E a legenda:
“O Vítia escreveu a dizer que aí houve uma inundação. Espero que já tenhas aprendido a nadar. Vou pedir o divórcio quando aterrar. As tuas coisas podes vir buscar — já mudei as fechaduras, o homem passou cá há uma hora. A tua ex.”
Pavel deixou o telemóvel cair na poça no chão.
A iniciativa estava perdida para sempre. A arrogância desprendeu-se dele como estuque velho. Ficou sozinho diante da mãe furiosa, dos vizinhos aos berros, a ameaçarem com um processo por somas astronómicas, e da consciência de que não tinha para onde voltar. O ordenado da fábrica não chegaria para cobrir os prejuízos nem em cinco anos. Teria de viver ali, na humidade e no bolor, sob os eternos reparos da mãe, que agora o iria moer o dobro.
Lembrou-se do olhar calmo e frio de Marina antes de sair. Ela não gritou. Limitou-se a destruir o mundo dele com uma decisão, deixando-o a limpar a confusão que ele próprio provocara.
Ao longe, o mar fazia-se ouvir, levando consigo o cansaço de uma mulher que, finalmente, aprendera a respeitar-se. E ali, no apartamento soviético a cheirar a humidade, Pavel tapou o rosto com as mãos sujas e desatou a uivar como uma beluga, percebendo que aquela lição de vida lhe tinha custado o preço de toda a sua vida passada.