— Porque é que decidiram que o vosso filho mais novo pode mudar-se para o meu apartamento?
— Bem, somos família…
— Nesse caso, claro que pode. A renda é setenta mil por mês.

Ludmila e Andrei estão casados há cerca de vinte anos. Têm um filho mais velho, Denis, que terminou recentemente a escola secundária e entrou na universidade, e uma filha mais nova, Milana, que acabou de começar o oitavo ano. A família vivia em harmonia: havia dificuldades, alguns desentendimentos, mas tentavam sempre resolver tudo juntos, sem grandes dramas nem discussões.
Há três anos, os sogros, Aleksandr Nikitich e Svetlana Egorovna, durante um jantar, anunciaram que o seu apartamento de três quartos no centro da cidade, onde viviam, seria deixado em testamento ao filho mais novo, Nikita.
Segundo eles, o apartamento fazia-lhe mais falta: ele era uma pessoa criativa, com rendimentos instáveis, e ainda não tinha constituído família, enquanto Andrei já tinha tudo. Ele tinha saído de casa aos vinte anos para viver num quarto de residência estudantil, conheceu Ludmila e logo a seguir casaram-se.
As palavras de Aleksandr Nikitich soaram banais, sem malícia, mas algo se quebrou dentro de Andrei. Não era uma questão de espaço — a família tinha onde viver. Ao longo de vinte anos de casamento, ele e Ludmila tinham adquirido o seu próprio apartamento de três quartos, comprado com hipoteca, praticamente já paga.
A dor vinha de outra parte: da diferença de tratamento entre os filhos. Parecia que os pais colocavam Andrei em segundo plano — o mais velho que se desenrascasse, não precisava de ajuda. Desde então, Andrei nunca tocou diretamente no assunto, mas Ludmila via como ele se fechava sempre que surgia uma conversa sobre a família. Continuava a comprar presentes aos pais nas datas festivas, visitava-os aos fins de semana, mas o seu sorriso parecia forçado e o olhar distante.
Até que, este ano, aconteceu algo que pôs tudo em perspetiva — tanto para Andrei como para os seus pais.
A avó de Ludmila — Elena Arkadievna — faleceu tranquilamente, durante o sono. Tinha quase noventa anos e, nos últimos tempos, levava uma vida calma, sem doenças graves, rodeada de cuidado. Ludmila e Milana visitavam-na quase todos os dias: cozinhavam, ajudavam na limpeza, levavam-na a passear. Milana até lhe fazia massagens às mãos e lia em voz alta os livros que a avó tanto gostava, mas que já não conseguia ler devido à vista cansada.
O funeral foi simples, como Elena Arkadievna desejara — tudo discreto, em família. O apartamento de um quarto onde a idosa vivera quase quarenta anos passou para Ludmila.

Ela e Andrei sentaram-se à mesa da cozinha e decidiram tudo de imediato. Vender não era opção — ficaria como “plano B” para os filhos. Por agora, iriam arrendá-lo e usar o dinheiro para pagar os estudos de Denis e poupanças. Fazia sentido: os anos passam, e em breve o filho quererá viver sozinho — assim teria já uma solução pronta.
Tudo correu pacificamente até ao dia em que Svetlana Egorovna soube da herança. Nessa noite, antes de Andrei regressar do trabalho, a sogra apareceu à porta do apartamento. Levava um bolo numa caixa branca e um sorriso doce, pouco habitual.
— Ludmila, querida — cantou ela ao entrar —, então, como estás? Tens aguentado bem depois de tamanha perda?
O tom era solidário, mas o brilho nos olhos denunciava mais curiosidade do que tristeza. Ludmila, mal tirou o avental, percebeu que aquela não era uma visita inocente. Sorriu cordialmente e ofereceu-lhe chá. Sabia bem que Svetlana Egorovna tinha outro motivo para aparecer e decidiu jogar o jogo.
Depois de algumas frases de circunstância sobre a saúde, o tempo e a Milana, Svetlana Egorovna conduziu delicadamente a conversa para Elena Arkadievna:
— Que descanse em paz… Era uma boa mulher. E o apartamento dela, lembro-me, era tão acolhedor. Aliás, diga-me… quem ficou com ele? — perguntou num tom de inocente curiosidade, fitando os olhos de Ludmila.
— Eu — respondeu Ludmila, calma e direta, bebendo um gole de chá.
Algo brilhou no olhar de Svetlana Egorovna, e ela mal conteve um sorriso, como quem acaba de ouvir o que queria.
— Que maravilha — disse com uma entoação que parecia mais satisfação pessoal do que alegria pela nora. — Simplesmente perfeito! Compreendes, o nosso Nikitka está… numa fase complicada…
Seguiu-se então o disco bem conhecido por Ludmila: Nikita, o pobrezinho, ficou sem um tostão no bolso, não tem trabalho, investiu todas as suas poupanças num “projeto” que por enquanto não dá lucro e agora, naturalmente, vive às custas dos pais.

E, segundo o próprio Nikita, o apartamento dos pais também é dele, portanto está tudo bem. No fundo, era verdade, já que Aleksandr Nikitich tinha feito o testamento antecipadamente.
— Então eu pensei — disse Svetlana Egorovna com um sorriso astuto —, talvez possas… enfim, como família, permitir que o Nikita viva provisoriamente no apartamento da avó?
Perante tamanha ousadia, um pedaço de bolo ficou entalado na garganta de Ludmila. Fingiu tossir e disse friamente:
— Porque é que decidiram que o vosso filho mais novo pode mudar-se para o meu apartamento?
— Bem, somos família…
— Nesse caso, claro que pode. A renda é setenta mil por mês.
Svetlana Egorovna engasgou-se com o chá e ficou imediatamente vermelha.
— Setenta mil?! Mas quem daria esse dinheiro por um T1 antigo? Ele é da família! Eu pensei que pudesse ficar lá de graça durante uns meses, até se recompor.
Ludmila ergueu ligeiramente as sobrancelhas:
— De graça pode ficar em casa dos pais. Este apartamento é para os nossos filhos. E além disso, quantos anos tem o Nikita para ainda “se recompor”? Se bem me lembro, fez recentemente trinta e quatro anos.
Fez-se um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som da porta de entrada a abrir-se. No espelho do corredor, Ludmila viu o reflexo de Andrei, curvado de cansaço a descalçar os sapatos.
Ele entrou na cozinha e Ludmila, sem alterar o tom, disse:

— Andrê, olha, a tua mãe decidiu aparecer… e não de mãos vazias, trouxe um bolo.
Svetlana Egorovna apressou-se a assumir a iniciativa, como se estivesse à espera desse momento:
— Andrêzinho, meu filho, mas que mulher a tua… — fez uma pausa dramática — não quer deixar o Nikitka morar no apartamento da Elena Arkadievna. Somos família! Como é possível?
Andrei, sem pressa, serviu-se de chá, sentou-se calmamente em frente da mãe e fitou-a nos olhos.
— Mãe — disse com firmeza —, eu apoio totalmente a minha esposa.
Svetlana Egorovna piscou, como se não tivesse percebido de imediato.
— Apoias?… — a voz dela tremeu. — Mas é o teu irmão!…
— Sim. E a Ludmila é minha esposa. Ela tem todo o direito de fazer o que quiser com a sua propriedade. Felizmente, os familiares gostam dela. Ao contrário de mim.
— Como assim?! — indignou-se Svetlana Egorovna. — Nós somos tudo para ti. Dávamos até a última camisa, e tu pensas tão mal de nós?
— Não é que eu pense, eu sei. E não venhas fazer-te de inocente. Já chega de acarinhar o Nikita em tudo. Ele precisa de crescer. Gasta todo o salário na primeira semana, depois pede dinheiro emprestado e nunca devolve. O Nikita ainda vai acabar por deitar a perder o vosso apartamento. Nem vão perceber como.
— Isso é inveja a falar em ti, — resmungou a sogra.
— Inveja? — riu-se Andrei.
— Claro, o Nikita sempre teve um carro espetacular, um bom emprego, e raparigas lindas.
Ludmila baixou ligeiramente os olhos. Andrei reparou e disse:
— De que servem as raparigas? Depois dos trinta, é preciso uma mulher que vá contigo para o que der e vier. Eu tenho uma assim, e além disso é lindíssima! E o Nikita, o que tem? Há alguém que possa dar a cara por ele? Não, pois não? Então pronto.
— Já chega! — gritou finalmente Svetlana Egorovna.
— Quem tem de parar és tu, — respondeu Andrei em voz alta. — Este apartamento é da Ludmila, e ela decide o que fazer com ele. O assunto está encerrado.
Ludmila sorriu-lhe discretamente, o olhar dela revelava gratidão.
Svetlana Egorovna, a respirar pesadamente de indignação, levantou-se bruscamente da mesa. A cadeira rangeu no chão.
— Pois muito bem! — rosnou ela, agarrando a caixa com o bolo inacabado. — Já que agora os vossos filhos têm apartamento, então também não precisam de bolo. Que a mãe deles que lhes compre!
Ludmila, sem alterar o tom, disse calmamente:
— A senhora, Svetlana Egorovna, é demasiado mesquinha. Pode bem ficar longe dos netos.
A sogra bufou e, com um sorriso desdenhoso, atirou por cima do ombro:

— Como se eu alguma vez precisasse deles…
Bateu a porta com força, e a entrada ficou em silêncio. Andrei baixou os olhos e suspirou profundamente. Ludmila sabia — naquele momento, um ponto final fora colocado na relação do marido com os pais.
Mas, afinal, não era um ponto, era apenas uma vírgula.
Dois dias depois, quando Andrei regressou do trabalho, recebeu um telefonema de Nikita:
— Andrei, ajuda-me… meti-me num grande sarilho. Preciso muito de dinheiro. Muito mesmo. Talvez tenhamos de vender o apartamento dos pais.
Andrei já ia perguntar o que tinha acontecido e como podia ajudar, mas Nikita, como se de propósito, largou a bomba:
— Mas, para não fazer isso, para salvar o apartamento dos pais, é preciso vender o da Ludmila. E então? Aquilo está vazio mesmo.
Estas palavras caíram como um balde de água fria. Andrei sentiu o sangue a latejar nas têmporas e limitou-se a carregar no “desligar”.
O telefone tocou logo de seguida. E outra vez. Nikita insistia, sem dar descanso. Mas Andrei olhava para o ecrã e não encontrava uma única palavra decente para responder a tamanha audácia. Apenas cerrou os dentes com mais força, sentindo como o cansaço habitual da família e do trabalho se transformava numa raiva fria, quase cortante.
Ao ver a expressão do marido mudar, Ludmila perguntou-lhe o que se passava.
— O Nikita quer que vendas o apartamento.
— E mais nada? — respondeu Ludmila, chocada. — E eu que só queria dizer que já encontrei inquilinos.
— Mais nada. Ele tem dívidas…

— Então que venda o carro de luxo, — sugeriu a esposa.
— Está em crédito.
— Nesse caso… ninguém mais o vai ajudar.
— Alguém vai. A mãe, de certeza, vai salvá-lo outra vez, — disse Andrei com tristeza.
— Pois que vá. Eu sei que são os teus pais, mas salvar o teu irmão não é a tua obrigação.
Meses depois, tudo ficou claro.
Um dia, Andrei soube, por um conhecido, que os pais anularam o testamento e já tinham vendido o apartamento do centro. O dinheiro deu para pagar parte das dívidas do Nikita e comprar um pequeno T1 na periferia.
Agora viviam numa apertada “khruschovka”, longe do antigo conforto e comodidade. Nikita continuava endividado, mas a mãe, cansada das suas constantes exigências e fracassos, pela primeira vez insistiu que arranjasse um trabalho normal. Os projetos criativos ficaram para trás — agora levantava-se cedo e ia para o escritório, resmungando ao princípio.
E a vida de Andrei e Ludmila seguia tranquila e estável. Continuavam no seu apartamento, e o da avó dava-lhes um rendimento regular de arrendamento. Ninguém lhes podia dizer o que fazer com a sua propriedade, e não deviam nada a ninguém.
Para os filhos, queriam apenas o melhor — para Denis e para Milana, sem preferidos nem esquecidos. Naquela família ajudava-se ambos, não apenas quem se queixava mais alto.
E talvez fosse precisamente essa a maior diferença entre a família deles e a que tinha formado Andrei.