— Que o Igor vá de férias, e tu vais trabalhar — disse a sogra.

Quando Elena ouviu o som das chaves na fechadura, o seu coração afundou-se. Ela conhecia aquele passo autoritário pelos corredores melhor do que o próprio pulsar do seu coração. O oitavo mês de gravidez tornava cada movimento doloroso, e agora teria de enfrentar alguém que temia mais do que as próprias contrações. A porta abriu-se e um turbilhão de críticas e desagrado invadiu o apartamento na forma de Galina Petrovna.

— Mas o que é isto! — exclamou a sogra em vez de cumprimentar. — Porque é que a minha nora tem uma expressão tão sombria no rosto?

A aparição da mãe de Igor era a última coisa que Elena queria naquele momento. Após o almoço planeava descansar — o peso que carregava no ventre exigia pausas constantes. Até as tarefas domésticas mais simples transformavam-se num teste de resistência.

Finalmente, a licença de maternidade recém-conquistada permitiria aliviar um pouco a sua situação, mas os planos desmoronaram-se num instante.

— Bem-vinda, Galina Petrovna — disse a mulher, submissamente, recuando para o lado.

— E onde está o meu Igor? — a mãe do marido começou imediatamente a procurar o filho com os olhos.

— Está a ganhar dinheiro — respondeu Elena com contenção —, trabalha pela nossa família e pelo bebé.

— Não és capaz de cuidar de ti própria? — Galina Petrovna pousou, de forma inesperadamente pesada, as malas e avançou majestuosamente pelo apartamento, quase derrubando a mulher grávida. — És adulta, em breve serás mãe, já é hora de amadurecer!

Assim que a sogra entrou, começou a inspeccionar cada canto, como se estivesse a fazer uma vistoria. Elena sentiu-se perturbada.

— Veio por algum motivo especial? — perguntou ela cautelosamente. — Trouxe alguma coisa?

— Hã? — Galina Petrovna virou-se surpresa. — Vou passar a viver aqui.

Estas palavras fizeram Elena fraquejar.

— Mas como… — balbuciou.

— Já me cansei daquele insolente com quem partilhava a casa — explicou a sogra, de forma descuidada, mas claramente irritada. — Não vou tolerar mais a insolência. Foi embora de imediato. O apartamento está em nome do meu filho, é difícil arranjar outro, por isso vou ficar aqui por enquanto.

A explicação apenas intensificou a frustração de Elena. Sim, a casa era espaçosa, mas isso dava à sogra o direito de invadir e exigir habitação?

Elena quis protestar, mas a gravidez exauriu-a completamente e, exausta, retirou-se para o quarto à espera do marido.

Infelizmente, a chegada de Igor pouco mudou — ele sentia pena da mãe. Embora Galina Petrovna fosse uma pessoa escandalosa, foi ela quem o criou, e ele não podia simplesmente abandoná-la.

Elena resignou-se, compreendendo os sentimentos do marido. Talvez houvesse ajuda extra nas tarefas domésticas?

As esperanças da mulher dissiparam-se rapidamente. Em poucos dias, a sogra assumiu totalmente o controlo do lar. Igor trabalhava constantemente, por isso Elena, grávida, teve de se adaptar à presença da mãe dele.

E adaptar-se era incrivelmente difícil. A sogra parecia insatisfeita com cada ação da nora. Repreendia-a pelos pisos por lavar, pelos migalhas deixadas na mesa, até por uma única chávena por lavar.

— Galina Petrovna — a nora falou com cansaço genuíno na voz —, perceba, a barriga impede-me de me inclinar, não me sinto bem, as costas doem, as pernas cansam…

— Ai, as costas doem! — em momentos assim, a sogra cruzava inevitavelmente os braços sobre o peito. — O trabalho de uma casa depende das mulheres! E o que importa que carregues um bebé? É assim! E isso não te isenta de tarefas domésticas! Eu sei o que faço — já criei o meu filho, tu ainda tens de aprender tudo!

Elena não encontrava palavras para responder. Não podia mostrar-se preocupada, e não queria provocar conflito.

Num dia de semana, enquanto Igor ainda trabalhava, os alimentos em casa acabaram, e era necessário ir às compras.

— Está bem, vou contigo — concordou, com ar altivo, a mãe do marido ao pedido de ajuda da nora. — Ainda vais confundir tudo. Pelo menos controlo.

— Obrigada… — Elena teria ido de bom grado sozinha, mas compreendia que, na sua condição, não conseguiria lidar com esta aparentemente simples tarefa.

O caminho até ao mercado correu sem problemas, e as compras também, à exceção das constantes queixas da sogra.

— Então, ainda estás a demorar? — resmungou mais uma vez a mãe do marido. — Pega nos sacos e vamos para casa. Já chega de passeio.

Elena ficou surpreendida com a ordem da sogra. O que significava “pega nos sacos”?

— Galina Petrovna — murmurou a nora cautelosamente, até com medo —, não pode ajudar-me? Não posso fazer esforço, sabe…

— Ah, esforço! — imitou a sogra. — É tão pouco, vais conseguir sozinha!

Elena não discutiu e pegou obedientemente nos sacos. Mas mal tinham percorrido alguns metros, começou a sentir-se mal. As compras eram demasiado pesadas.

— Oh… — queixou-se —, não me sinto bem…

— Mas o que se passa? — Galina Petrovna nem pestanejou, embora percebesse que algo estava errado com a nora. — E não consegues levar os sacos sem problemas?

Mas Elena já não ouvia — os ouvidos tinham-lhe ficado entupidos.

— Mulher! Mulher! — um homem desconhecido correu e segurou Elena, que se tinha enfraquecido. — O que se passa consigo? Quer que chame um médico?

— Não, não é preciso, já me passa… — acenou a futura mãe, tentando afastar a preocupação.

— Mulheres hoje em dia são tão delicadas… — suspirou Galina Petrovna com ar sombrio. — Incapazes de quase tudo…

Felizmente, alguns minutos depois Elena realmente começou a sentir-se melhor, e não foi necessário chamar a ambulância. Galina Petrovna, com ar altivo, mas mostrando algum remorso, pegou em parte das compras. Tudo correu bem, e chegaram a casa.

Quando Igor soube do sucedido, correu para casa o mais rápido possível.

— Minha querida Lenotchka — sentou-se ao lado da esposa, acariciando-lhe a mão —, desculpa! Eu devia ter ajudado. Porque não esperaste por mim? Eu teria tratado de tudo!

— Pensei que conseguiria — sussurrou Elena —, tu trabalhas do amanhecer ao anoitecer, queria poupar-te…

— Então porque não pediste ajuda à tua mãe? — perguntou Igor.

Elena fechou os olhos por um instante e suspirou profundamente.

— Não queria dizer — começou ela —, mas foi exatamente a Galina Petrovna que me obrigou a carregar aqueles sacos pesados.

O marido ficou surpreso e deixou de acariciar a mão da esposa.

— A mãe?.. — murmurou, incrédulo.

— E quando comecei a sentir-me mal… — os ombros de Elena tremeram com as lágrimas que ameaçavam cair —, ela simplesmente ignorou-me.

Seguiu-se um silêncio pesado; Elena chorava em silêncio.

— Vou tratar disso, não te preocupes. Descansa, querida — disse o marido, levantando-se e dirigindo-se decididamente para o quarto da mãe.

Elena mal conseguia ouvir a conversa entre Galina Petrovna e o filho, mas percebia que o tom era elevado. A nora só podia esperar que a sogra a deixasse em paz ou pelo menos se tornasse menos cruel.

Chegou finalmente o momento tão aguardado. Elena não se cansava de admirar a pequena filha nos braços. O marido estava tão feliz que chegou a chorar, o que emocionou profundamente a mulher. Parecia começar uma nova vida, que a cada dia se tornaria melhor.

Mas, infelizmente, a realidade revelou-se menos cor-de-rosa. A maternidade é um trabalho árduo, e Elena teve de comprovar isso na própria pele. Quase todas as noites a bebé chorava, e a jovem mãe mal dormia. A filha muitas vezes era temperamental, o que perturbava constantemente Elena. Por vezes, embalava a criança durante horas, mas ela continuava a chorar…

— E ainda te chamas mãe! — mesmo depois do nascimento da neta, Galina Petrovna não se acalmou e continuava a repreender a nora.

Elena sentia que, após a conversa de Igor com a mãe, a situação não melhorara, antes pelo contrário — tornara-se ainda pior. A sogra parecia ainda mais irritada, e as críticas dirigiam-se mais frequentemente a Elena do que a qualquer outro.

Mas, mesmo criticando constantemente a nora, Galina Petrovna não se apressava em ajudar. Preferia resmungar com Elena exausta e depois sair silenciosamente, deixando a mulher sozinha com a criança.

As dificuldades não terminaram aí. Numa noite, quando Elena conseguiu finalmente deitar a filha e sentar-se para comer na cozinha, o marido voltou a casa. Silencioso, o que não era habitual nele, dirigiu-se ao quarto e fechou a porta. Elena percebeu de imediato que algo sério tinha acontecido, e esperou com ansiedade.

E assim foi: o marido, cansado e claramente perturbado, com o olhar apagado, sentou-se ao lado da esposa.

Seguiu-se um silêncio. Elena compreendia que Igor precisava de reunir forças.

— Fui despedido — disse ele secamente, incapaz de olhar para Elena.

A mulher deixou os ombros caírem. Sentaram-se em silêncio por alguns minutos, sem saber o que dizer. A vida já era difícil, mas esta reviravolta tornava tudo ainda mais doloroso.

De repente, ouviu-se o choro de uma criança no quarto ao lado. Elena sabia que tinha de se recompor e voltar às suas responsabilidades, apesar das más notícias.

— Vou arranjar uma solução — tentou acalmá-la Igor.

— Sei — a esposa sorriu levemente e beijou o marido.

Com estas palavras, dirigiu-se a consolar a filha acordada.

No dia seguinte, o casal teve uma conversa séria. A família procurava uma solução para a situação com o mínimo de prejuízo.

Mas, mesmo neste momento importante, Galina Petrovna interferiu.

— Ouvi-vos a fazer planos aqui — afirmou altivamente —, mas por que é que querem fazer do meu filho um trabalhador? E tu, não pensas em fazer nada?

A pergunta repentina e atrevida deixou Elena completamente paralisada. O marido também parecia confuso.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Elena timidamente.

— O que é que há de confuso? — exclamou a mãe do marido, cruzando os braços, como era habitual.

— Que o Igor vá de férias e tu vás trabalhar — disse a sogra.

Elena não podia acreditar nas palavras de Galina Petrovna. Tinha nos braços a sua pequena filha, de quem cuidava dia e noite, sem dormir, sem comer. Parecia agarrar-se às últimas forças. E a sogra dizia coisas tão insuportáveis.

O coração de Elena afundou-se. Parecia que iria chorar ali mesmo, diante da mãe do marido, e que esta a iria novamente repreender pela sua “fraqueza”.

Mas então o marido perdeu a paciência e olhou para Galina Petrovna com raiva.

— Mãe, como podes dizer uma coisa destas?! — Igor já não conseguia conter-se. — Como podes tratar a Elena assim?! Dizer palavras como estas?!

A sogra ergueu as sobrancelhas, surpreendida. Tal reação do próprio filho não era de todo esperada.

— Igor? — exclamou a mãe, confusa e ofendida. — Estás a defender-la? Não vês? Está sempre aos teus pés! Não ganha dinheiro, quase não faz nada!

— Ela está a criar a minha filha! — Igor não conseguia acreditar nas objeções da mãe. — Cansa-se tanto como eu, ou até mais! Para além de cuidar da criança, ainda tenta manter a casa, cozinhar, limpar!

O homem fez uma pausa para se acalmar.

— E tu, mamã, realmente não fazes nada — disse Igor firmemente. — Só chateias a Elena, resmungas, és rude com ela! E ela tem nos braços a tua própria neta! Não te importa nada?!

— Eu estou a cuidar de ti! — exclamou Galina Petrovna, irritada, levantando as mãos.

— Cuidas de mim se deixares de fazer a minha esposa infeliz — respondeu o filho, com firmeza.

Respirou fundo e endireitou-se.

— Sabes que mais? — cruzou os braços. — Começa a procurar um apartamento e muda-te. Não vais viver connosco para sempre, mãe.

Galina Petrovna abriu a boca, surpresa, mas passado um segundo franziu o sobrolho, zangada.

— É assim que tratas a tua própria mãe! — exclamou. — Muito bem! Eu já queria ir embora! Viver convosco é insuportável!

— Óptimo, está combinado — concluiu Igor.

Nos dias seguintes, Galina Petrovna procurou, sem sucesso, um novo lugar para viver e continuou a atacar a nora. Mas agora, conhecendo a crueldade da mãe, Igor não a deixava aproximar-se de Elena e protegia-a de todas as formas possíveis.

— Não posso mais convosco! — exclamou Galina Petrovna, mais uma vez. — É melhor voltar para aquele tipo com quem me zanguei, para o apartamento antigo — pelo menos com ele era mais fácil!

— Ninguém te prende, mãe! — respondeu Igor. — Sai depressa, queremos descansar, finalmente viver em paz.

— Ingrato! — disse a mãe pela última vez.

No dia seguinte, ela arrumou silenciosamente as suas coisas e deixou a casa de Elena e Igor. A jovem família pôde finalmente respirar livremente. O marido encontrou um novo emprego, e Elena lidava cada vez melhor com a filha. Igor, sempre que podia, ajudava a esposa.

Desde então, nem o filho nem a nora mantiveram contacto com Galina Petrovna. Ela própria, guardando a mágoa, parecia ter esquecido da existência deles. Mas isso não preocupava Elena nem Igor.

Eles sabiam que era o melhor para todos, até para a filha em crescimento. Melhor que ela não tivesse avó, do que ter de suportar aquilo que a mãe suportou.

Like this post? Please share to your friends: