— Vais ligar de imediato e recusar esse trabalho! — ele agarrou-lhe o braço. — Eu proíbo! Estás a ouvir-me? Proíbo!

Anna fechou a porta do armário de arquivos um pouco mais bruscamente do que o habitual. O telefone tocava pela terceira vez numa hora — a melodia soava como uma broca insistente.


— Onde é que te metes? — a voz de Mikhail rasgou o silêncio do arquivo. — Outra vez a brincar com os teus papéis?
— Estou a trabalhar — respondeu Anna, sem levantar os olhos dos documentos.

— A trabalhar! — ele riu-se, sarcástico. — Remexer em pastas empoeiradas por trocados. Quando é que percebes, finalmente, que isso não é carreira nenhuma, mas sim uma triste ocupação de fracassadas?

— Esses “papéis” guardam a história da nossa cidade — retorquiu Anna calmamente. — Talvez isso ultrapasse a tua compreensão de valores.

— Não me armes em sabichona! — rugiu Mikhail. — A tua “história” não nos vai dar dinheiro nenhum. Vives num mundo de ilusões!

Anna desligou o telefone em silêncio. Seis anos no arquivo local, o reconhecimento dos colegas, os agradecimentos de investigadores — para Mikhail, tudo isso não passava de uma “brincadeira com papéis”. O seu diploma em História com distinção era, para ele, apenas um enfeite de parede, e a tese de doutoramento — uma perda de tempo.

A porta do arquivo abriu-se. Entrou uma mulher desconhecida, de cerca de quarenta anos, elegante, confiante.
— Desculpe, é a Anna Viktorovna? Sou a Ekaterina. A ex-mulher do seu marido.

— Oh! — Anna ergueu as sobrancelhas. — Que surpresa. Entre, por favor. Espero que não seja para uma cena?
— Não. — Ekaterina olhou em volta. — Sinto-me embaraçada por aparecer assim, mas temos algo a discutir. Onde poderíamos falar?

— Há um café aqui perto. É sossegado. Peço apenas que evitemos emoções.

Ekaterina sentou-se à sua frente, no pequeno café ao lado do arquivo, e retirou as luvas com elegância.
— O Mikhail falou-lhe de mim? — perguntou ela, mexendo o açúcar na chávena.

— Sim, disse que vocês não se entenderam. Uma versão demasiado lacónica, quase insultuosa.

— “Não se entenderam”? — Ekaterina sorriu com amargura. — Bela formulação. Sou professora de Literatura. Fui durante seis anos. Quando conheci o Mikhail, ele deslumbrava-se com a minha erudição, com as citações dos clássicos, chamava-me “a sua musa”.
Anna pousou a colher, escutando atentamente.

— Um ano depois já me chamava de fracassada, incapaz de ganhar dinheiro a sério. “Para que te servem esses poetas mortos?”, dizia ele. “Arranja algo útil para fazer!”
— Soa-me familiar — comentou Anna, sarcástica. — Ele não tem grande repertório.

— Ele escolhe de propósito mulheres como nós — continuou Ekaterina. — Mulheres cultas, de profissões socialmente relevantes. Primeiro admira o intelecto, depois destrói sistematicamente a autoestima. Museólogas, bibliotecárias, professoras — para ele somos todas iguais. Inteligentes, mas “impráticas”.

— Porque me está a contar isto? — perguntou Anna, embora a resposta já se formasse na sua mente.
— Porque, depois do divórcio, voltei ao ensino. Agora sou chefe de departamento na universidade. Afinal, não sou nenhuma fracassada. Apenas vivia com alguém que me convencia do contrário.

— E o que mudou?
— Tudo. Quando a voz venenosa se cala, percebes de repente que podes respirar fundo — Ekaterina sorriu. — Os meus alunos ganham bolsas, os meus artigos são publicados em revistas de prestígio. E o Mikhail continua a achar que a literatura é uma brincadeira.

— Parece que a opinião dele sobre as ciências humanas é inabalável — Anna abanou a cabeça.
— Minha querida, ele tem medo de mulheres instruídas. Mas teme ainda mais a nossa independência. Por isso primeiro doma, depois quebra.

Após o almoço, Piotr Aleksandrovitch, o diretor do arquivo, entrou no gabinete com um envelope na mão e um ar solene.
— Anna Viktorovna, tenho uma proposta para si. A estação de televisão regional está a planear um ciclo documental sobre a história local. Precisam de uma consultora e autora dos guiões.

Anna abriu o envelope. O valor do honorário triplicava o seu salário mensal.
— Eles querem especificamente a senhora — continuou Piotr Aleksandrovitch, orgulhoso. — A sua capacidade de transformar documentos de arquivo em histórias vivas impressionou os produtores. O projeto está previsto para um ano, com possibilidade de prolongamento.
— É tentador — admitiu Anna. — Preciso de pensar.

— Anna, isto é uma oportunidade não só para si, mas para todo o arquivo. A história regional terá grande visibilidade. As pessoas vão descobrir os tesouros que se guardam nestas paredes.
— Tem razão. É uma chance de mostrar o valor do nosso trabalho.

— E de dissipar o mito de que a História é aborrecida. Nas suas mãos, ela ganha vida.

Em casa, Anna contou-lhe cuidadosamente sobre a proposta, já preparada para a tempestade. A reação de Mikhail foi previsível, mas superou as expectativas.

— Estás doida! — ele saltou do sofá, o rosto distorcido pela raiva. — Vais exibir-te para a região inteira? As pessoas vão pensar que eu não consigo sustentar a minha mulher! Que tenho uma gaja a trabalhar na televisão!
— Esta é a minha profissão, Mikhail. E bastante prestigiada, aliás.

— Profissão? Tu remexes em papéis por uma miséria! E agora queres envergonhar-me na televisão, a falar de mortos?!
— Envergonhar-te? — Anna olhou-o, surpresa. — Vou falar do património cultural da nossa região. Onde está aí a vergonha?…

— Onde está a vergonha? — ele agarrou a cabeça. — Todos os meus colegas vão rir! “Vejam só, a mulher do Mikhail a fazer-se passar por cientista!” Não percebes?

— Percebo que te preocupas mais com a opinião dos colegas do que com as minhas conquistas — respondeu Anna calmamente.

— Proíbo-te de envergonhar a nossa família!

Anna tirou o telefone calmamente e marcou o número do produtor.

— Aceito a vossa proposta — disse, olhando diretamente para Mikhail.

— Vais ligar de imediato e recusar! — ele agarrou-lhe o braço. — Eu proíbo! Estás a ouvir-me? Proíbo!

— Não.

A palavra soou baixa, mas firme. Mikhail ficou imóvel, sem acreditar no que tinha ouvido.

— O que disseste? Repete!

— Não. Não vou recusar. E tira as mãos.

— Ah, é assim! — os olhos de Mikhail estreitaram-se. — Então escolhe: ou essa televisão estúpida, ou a família! Ou os teus papéis mortos, ou um marido vivo!

Anna olhou para ele — belo, gestor bem-sucedido, que durante quatro anos a tinha convencido da sua própria inutilidade. Agora via nos olhos dele não confiança, mas medo. Ele temia a sua independência.

— Sabes o que é engraçado? — disse ela, pensativa. — Chamas ao meu trabalho “morto”, e tu tens medo de uma mulher viva.

— O quê? Que disparate estás a dizer?

— Eu escolho a liberdade, Mikhail. E revelou-se mais fácil do que pensei.

Em meia hora, Anna fez as malas. Surpreendentemente, havia poucas coisas acumuladas em quatro anos — Mikhail considerava as suas compras desperdício, os livros lixo e os hobbies estupidez.

— Vais arrepender-te! — gritava ele atrás dela. — Sem mim és ninguém! Voltas rastejando daqui a um mês!

— Vamos ver — respondeu Anna por cima do ombro. — Tenho um contrato com a televisão. E tu, o que tens?

A porta fechou-se. Anna não sentia medo, apenas alívio — como se tivesse tirado uma roupa apertada após um longo dia.

Valentina Petrovna, veterana do arquivo, recebeu Anna com compreensão e chá quente.

— Vive o quanto for preciso, querida — disse a senhora idosa. — Eu própria me divorciei à tua idade. Sei como é começar a vida de novo.

— Obrigada, Valentina Petrovna. Vou arranjar rapidamente casa.

— Não te apresses. A solidão após o inferno familiar é um luxo que se deve saborear.

No dia seguinte, ligou a jornalista Svetlana:

— Anna Viktorovna, tenho uma proposta. No centro regional está a abrir um centro cultural. Procuram responsável pelo departamento histórico. Salário digno, habitação de serviço, perspetivas de crescimento.

— Parece interessante. Estou interessada.

— Ótimo! Os seus trabalhos sobre história regional impressionaram a comissão. Especialmente o artigo sobre dinastias comerciais. Quando pode vir para a entrevista?

— Até amanhã. Não tenho mais restrições.

Uma semana depois, Mikhail apareceu com um ramo de rosas e lágrimas nos olhos — o clássico kit do tirano arrependido.

— Perdoa-me, Anetchka — caiu de joelhos no hall. — Percebi os meus erros. Vou apoiar a tua carreira, prometo! Mesmo nessa televisão!

— Levanta-te — disse Anna calmamente. — Não temos nada para discutir.

— Mas… percebi que estava errado! Podes trabalhar onde quiseres!

— Percebeste que perdeste o controlo. São coisas diferentes, querido.

— Anetchka, mas nós amamo-nos! Quatro anos juntos!

— Não, Mikhail. Amavas em mim uma boneca obediente. E eu durante quatro anos representei o papel que me impuseste. O espetáculo acabou.

— Ficaste maluca? Por causa de um trabalho vais destruir a família!

— Por causa de um trabalho? — Anna sorriu. — Querido, não percebeste nada. Eu não saio por causa do trabalho, saio por tua causa.

No centro regional, Anna encontrou uma nova vida. O centro cultural oferecia oportunidades ilimitadas para a criatividade: exposições, conferências, cooperação internacional. Descobriu capacidades de liderança que desconhecia.

A independência financeira permitiu-lhe alugar um bom apartamento, viajar e conhecer pessoas interessantes. Velhos amigos, isolados por Mikhail, retomaram com alegria a amizade.

— Estás radiante — disse a amiga Marina durante o jantar. — Não te via tão viva há muitos anos.

— Sabes, afinal não sou um rato cinzento — riu-se Anna. — Apenas vivi demasiado tempo num mundo cinzento.

— E o projeto televisivo, como corre?

— Maravilhosamente! Os primeiros episódios tiveram ótimas críticas. Os espectadores escrevem agradecimentos. Parece que as pessoas se interessam pela história da sua região, quando é contada de forma viva.

— E ninguém se ri de “remexer em papéis”?

— Pelo contrário. Convidam-me para conferências e consultas. No mês passado, falei na universidade — os alunos ouviram de boca aberta.

Entretanto, Mikhail, seguindo o padrão habitual, começou seis meses depois a sair com Olga — uma jovem historiadora de arte do museu. Como antes, primeiro admirava a sua cultura e educação, como se ensaiasse uma nova máscara para o próximo ato do seu teatro de um só ator.

Num dia, durante uma conferência no centro regional, Anna encontrou Olga. A jovem parecia cansada, mas esforçava-se por manter a postura.

— É a Anna? — aproximou-se durante a pausa, a voz trémula. — Mikhail falou de si. Disse que simplesmente não se entenderam, que têm visões diferentes da vida.

— Compreendo — sorriu Anna com leve ironia. — E como estão os vossos relacionamentos? Continua tudo tão romântico como no início?

— Sinceramente? — Olga baixou a voz, olhando em volta. — Ele começou a chamar ao meu trabalho uma perda de tempo sem futuro. Diz que História da Arte é um hobby caro para fracassadas que têm medo da vida real. E ainda acrescenta que eu vivo num mundo de ilusões.

— E a tua cultura, aquela de que ele tanto se admirava? — na voz de Anna havia uma leve zombaria.

— Agora chama-lhe ostentação. Diz que só finjo ser inteligente para parecer melhor do que os outros.

Anna lembrou-se da sua conversa com Ekaterina, assim como dos próprios tormentos dos últimos anos de relacionamento.

— Olga, deixa-me contar-te algo importante. Algo que pode poupar-te alguns anos de vida.

— Estou a ouvir — disse a jovem, tensa.

— O mais insidioso nos métodos dele? Ele começa por admirar precisamente aquilo que depois vai destruir meticulosamente. Primeiro és uma pessoa culta e refinada, depois uma presunçosa. Primeiro o teu trabalho é uma vocação, depois é uma perda de tempo inútil.

— Mas ele diz que quer ajudar-me a ser melhor…

— Querida, um homem que realmente ama não tenta transformar a mulher à sua imagem. Aceita-a como é e ajuda-a a florescer, não a murchar.

Três dias depois, Olga telefonou.

— Anna, agradeço do fundo do coração. Terminei a relação com o Mikhail. Depois da nossa conversa, tudo fez sentido, como um puzzle finalmente completo.

— E como reagiu à tua decisão? Imagino que não tenha sido fácil.

— Primeiro tentou ameaçar-me, dizia que eu ia arrepender-me até ao fim da vida. Depois passou a implorar, jurava que ia mudar, que eu tinha interpretado tudo mal. No fim começou a chamar-me ingrata e estúpida, por trocar um homem “real” por fantasias feministas.

— E resististe?

— Sim, e sabes quê? Foi mais fácil do que pensei. Quando vês o quadro completo, as manipulações tornam-se ridiculamente primárias.

— Fizeste a escolha certa. A vida é demasiado curta para gastá-la com quem não nos valoriza.

— Anna, e como lidou com a culpa? Ele dizia tão convincentemente que eu estava a destruir a nossa felicidade…

— Querida, a única coisa que destruíste foram os planos dele de te transformar numa marioneta conveniente. E isso, acredita, merece aplausos, não lágrimas.

Mikhail, privado da possibilidade de controlar a terceira mulher consecutiva, perdeu o seu apoio habitual. Começou a saltar de trabalho em trabalho, a discutir com colegas, a perder amigos um a um. O esquema habitual sofreu uma falha grave — mulheres cultas já não cediam às suas manipulações engenhosas.

Um mês depois, tentou contactar Anna, deixando várias mensagens de voz.

— Anna, sou eu, Mikhail. Ouve, percebo que acabou entre nós, mas por que estás a pôr outras mulheres contra mim? — a voz dele soava irritada. — A Olga disse que falaste com ela. Que infantilidade é esta? Somos adultos.

Anna não respondeu à primeira mensagem. A segunda chegou uma semana depois:

— Sabes, Anna, talvez eu estivesse errado em algumas coisas. Talvez devêssemos encontrar-nos e conversar? Sinto falta das nossas conversas, da tua inteligência. Sabes que não existem outras como tu.

E a terceira, já abertamente agressiva:

— Bem que era certo termos terminado! Tornaste-te uma feminista amargurada, que não consegue organizar a própria vida e estraga a dos outros! A Olga foi estúpida por te ouvir. Mas não te preocupes, ela ainda vai perceber o erro que cometeu!

A última vez que viu Mikhail foi no supermercado, seis meses após o término. Ele parecia envelhecido, perdido, com um ar de resignação nos olhos. Ao vê-la, tentou aproximar-se, mas Anna passou calmamente, sem sequer abrandar o passo.

— Anna, espera! — gritou ele. — Não podemos conversar como pessoas civilizadas?

Ela virou-se e olhou-o com firmeza:

— Mikhail, não temos assuntos em comum para discutir. Desejo-te que te encontres e deixes de procurar culpados pelos teus próprios fracassos.

— Tornaste-te tão fria… — murmurou ele.

— Não — respondeu Anna calmamente. — Tornei-me honesta. E isso faz toda a diferença.

O jogo de destruição terminou para sempre.

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