— Vendeste o apartamento por causa da tua mãe? Então agora vive sem mulher e sem casa! — gritei ao meu marido e fui preparar a mala.

— Vendeste o apartamento por causa da tua mãe? Então agora vive sem mulher e sem casa! — gritei ao meu marido e fui preparar a mala.

Quando Irina entrou no hall, cheirava a tabaco. A luz do corredor não estava acesa — a lâmpada que Andrei prometera trocar há uma semana continuava sem funcionar. Ela, às apalpadelas, acendeu o candeeiro da sala e viu o marido — sentado no sofá, com um rosto cansado e o olhar perdido, como se não notasse que já há nove noites seguidas quase não trocavam palavra.

— Já comeste? — perguntou ela baixinho, enquanto se despia.

Andrei acenou com a cabeça, sem levantar os olhos do chão. Irina sabia que não tinha comido. Ele começara a mentir por pequenas coisas — e isso irritava. Não era tanto a mentira em si, mas a indiferença com que a servia. Antes zangava-se, discutia, fervia. Agora — silêncio.

Na cozinha não havia nada. No frigorífico — um frasco de mostarda, o trigo-sarraceno de ontem e meia garrafa de molho de soja. Irina abriu o armário — quase todos os mantimentos que comprara para a semana tinham desaparecido. Até o chá. Andrei não comia — levava tudo. Outra vez.

— Onde puseste a comida? — não se conteve ela, regressando à sala. — Fiz compras para a semana. E desapareceu tudo. Outra vez.

Andrei suspirou.
— Levei à mãe. Ela não tem absolutamente nada, tu sabes.

Irina sorriu com ironia, mas os olhos não acompanharam.
— Nós também agora não temos nada. Estás ciente?

— É temporário — murmurou ele. — Já tratei de tudo. Em breve resolve-se.

Ela aproximou-se.
— O que queres dizer com “resolve-se”?

— Vendi o apartamento — disse quase com calma. — O dinheiro já foi transferido. Dentro de duas semanas saímos. Vamos salvar a casa da mãe, e nós… ficamos lá com ela por enquanto, é espaçoso. Depois compramos outro. Juntos. Vai ficar tudo bem.

Irina sentiu como se a divisão tivesse encolhido. O ar apertava. Sentou-se ao lado dele, devagar, para não gritar.
— Ou seja, nem me disseste. Simplesmente… vendeste. O nosso apartamento. Onde vivemos. Onde eu, com o meu dinheiro, fiz obras. Onde…

— A bem dizer, o apartamento pelos documentos é meu. Para que começas com isso! — exaltou-se ele. — Tu só falas do apartamento. Mas é a mãe! Ela está em apuros! Criou-me sozinha, não te esqueças. E agora precisa de ajuda. Não é óbvio a quem eu tinha de salvar?

Lá estava. Sempre a mesma coisa.

Irina levantou-se. Falar mais não fazia sentido. Já estava tudo dito — muitas vezes, de diferentes maneiras, com gritos e sem gritos. E sempre no centro estava ela. Galina Sergueievna.

Na cabeça de Irina começaram a desfilar lembranças: como lavava roupa de cama alheia quando a sogra vinha por uma semana e ficava um mês. Como a chamava de “mimada”, porque Irina ganhava mais do que Andrei. Como se indignava por a nora ter opinião própria. E como Andrei repetia: “Tem paciência. É só por pouco tempo”.

E esse pouco transformou-se em sempre.

— Vou-me embora — disse ela.

— Para onde vais?

— Não sei. Mas de certeza não para casa da tua mãe.

Ele ficou calado. Depois levantou-se bruscamente, aproximou-se.
— Estás a falar a sério? Por causa de um apartamento? Estás disposta a destruir tudo?

Ela olhou-o como se visse um estranho. O marido que escolhera já não existia. Ficara apenas o filho da mãe dele, disposto a queimar pontes por uma chamada telefónica.

— Não é por causa do apartamento, Andrei. É porque para ti eu não sou nada. A minha opinião não conta. Nem sequer pensaste. Decidiste como te convinha. E eu sou apenas um acessório.

— Estás a exagerar…

— Não. Só percebi qual é o meu lugar. E não é ao teu lado.

Ela não chorava. As lágrimas tinham-se esgotado há muito. Restava apenas a sensação de que se agarrava a algo que já não existia. Como se as suas mãos ainda se prendessem ao corrimão de um comboio que já partira.

Andrei voltou a sentar-se no sofá. Nem tentou detê-la.

Irina foi em silêncio para o quarto. A mala já estava quase feita. Sabia que este dia chegaria — apenas esperava que mais tarde. Ou nunca.

Não tinha para onde ir. Mas ficar — era pior.

Irina estava sentada num café junto ao metro, olhando para a chávena de café, que não tinha nem sabor nem cheiro. A amiga Nina não fazia perguntas. Apenas apareceu, sentou-se ao lado.

— Posso ir para tua casa? — disse Irina. — Só preciso de uns dias para organizar as ideias. Não quero arrepender-me depois de ter saído a quente.

Nina resmungou.
— Tu não aguentaste a quente, a quente foi ele que saiu. Só não percebeste logo.

Irina acenou.

Uma hora depois já estava em casa da amiga, num T1 onde o cheiro de roupa lavada se misturava com perfume e pêlo de gato. Dormiu mal. As caras passavam-lhe pela mente — Andrei, a sogra, e via-se a si própria de fora — como se alguém assistisse a uma gravação antiga. Como sorria, pintava as paredes do quarto azul, como juntava dinheiro para os móveis, como assinava a entrega. Tudo — inútil. Tudo — alheio.

Galina Sergueievna tinha os seus próprios planos. Ligava ao filho várias vezes por dia, exigia relatórios, perguntava quando transfeririam o resto do dinheiro. A casa no bairro deles já estava arrestada. Algumas semanas antes tinham aparecido cobradores, batiam à porta, e a vizinha de Galina fingia que não estava em casa. A dívida — quase um milhão. Galina afirmava que emprestara o dinheiro a um parente para abrir uma cafetaria. Ele desapareceu. Contrato, nenhum. Apenas um papel rabiscado à mão.

— Tu entendes — dizia ela queixosa a Andrei —, sem ti é o meu fim. Esta casa é tudo o que eu tenho. É a tua casa de infância! Foi aí que te criei desde bebé! Vais mesmo deixar que me ponham na rua?…

Andrei compreendia. Tinha medo. E vergonha. E era duplamente difícil, porque tinha de escolher entre a mulher que lhe dera a vida — e aquela com quem estava a construir essa vida.

Mas a escolha já estava feita.

O apartamento onde viviam com Irina, oficialmente, era dele. Herdara-o do pai, que morrera seis anos antes. Nessa altura, a mãe insistira: «Vendemos e compramos-te um T2 num bairro novo!». Mas ele recusara. Ele e Irina investiram nas obras, escolheram juntos quase todas as tomadas e interruptores. Sim, juridicamente era dele. Mas moralmente… também era dela.

Ao terceiro dia, Irina recebeu de Andrei uma mensagem:

«Não queria que fosse assim. Desculpa. Podes voltar — eu resolvo tudo.»

Ela não respondeu logo. Primeiro foi até ao apartamento. Ficou parada à porta. No prédio cheirava a tinta fresca — um vizinho andava a pintar as paredes. Do outro lado da porta ouviu a voz da mãe de Andrei, que falava alto ao telefone. Sobre créditos. Sobre como «agora está tudo controlado». Nenhuma nota de culpa.

Irina desceu as escadas em silêncio. Quando voltou para casa de Nina, chorou pela primeira vez em muitos dias. Não em desespero — mas baixinho. Quase sem som.

Uma semana depois alugou um estúdio, com um fogão estreito e um sofá desconfortável. Deixou o emprego antigo — já não conseguia todos os dias encarar colegas que a conheciam como “a mulher do Andrei”. Arranjou trabalho numa redação. O salário — mais alto. Ninguém fazia perguntas a mais.

Todas as manhãs preparava papas para si, lia as notícias, ouvia o vizinho ensinar o filho a contar. Às vezes cruzavam-se no elevador. Irina sorria. Só para se lembrar de que ainda podia ser gentil. Sem medo de que alguém voltasse a aproveitar-se disso.

Uma noite entrou no supermercado — para comprar leite. E quase deu de caras com Andrei.

Ele estava junto às bancas de legumes, com a mesma postura curvada de antes. Na mão — uma rede de batatas, o rosto marcado, o olhar perdido.

— Ira — murmurou, como se tivesse visto um sonho do qual não queria acordar.

Ela parou, mas não se aproximou.

— Como estás?

— Vivo com a mãe. É complicado. Eu… sabes, estraguei tudo.

Ela ficou em silêncio. Ele olhava-a com esperança — talvez ela dissesse que o perdoava, que voltaria, que podiam recomeçar.

Mas ela não disse.

— Pedi o divórcio, espero que consigas ficar bem — respondeu Irina com calma. — A sério.

E passou por ele. Sem olhar para trás.

Ele não correu atrás dela.

Irina saiu da loja e caminhou devagar em direcção a casa. Estava fresco. Na paragem estava uma idosa com um saco de rede, um rapaz novo fumava olhando para o telemóvel. A vida seguia, como se nada tivesse acontecido. E de facto — para a cidade nada acontecera. Uma mulher comum apenas deixara o marido. Uns diriam — «enfim, incompatibilidade de feitios». Mas ninguém imaginaria quantos anos ela tentara ajustar esses feitios, convencer, alisar, engolir, conciliar.

Passou quase um ano.

Irina cortou o cabelo num carreé, inscreveu-se na piscina e foi a Suzdal num fim-de-semana — sozinha, com mochila e máquina fotográfica que estava guardada desde o casamento. Ainda sentia tristeza. Sobretudo de manhã. Sobretudo por hábito — quando queria contar algo, partilhar uma trivialidade, e percebia que não tinha a quem. Mas já não era a mesma dor. Não de perda, mas de silêncio — o silêncio que vem depois de um furacão.

A amiga Nina disse-lhe um dia:

— Estás com o ar de alguém a quem já não devem nada. Nem o marido, nem a sogra, nem a vida. És simplesmente — tu. Há muito que não te via assim.

Irina sorriu. Continuava a lembrar-se. De tudo. Mas já sem vontade de voltar atrás.

Andrei vivia com a mãe num T2 arrendado. Vendera o seu, liquidara a dívida dela. O que restara deu para um ano, depois começou a ser duro. Galina Sergueievna, depois de salvo o imóvel, queixava-se cada vez mais da saúde, recusava voltar para a casa antiga — dizia que era aborrecido e «um ermo». Ele irritava-se, mas calava. Não tinha para onde regressar. O divórcio fora oficializado, Irina recebera uma pequena compensação. Gesto de generosidade ou tentativa de reconciliação — difícil dizer.

Irina não atendia chamadas. Não respondia a mensagens. Por vezes Andrei espreitava as redes sociais dela. Via fotos em museus, exposições, cafés. Ela estava viva outra vez.

Ele, não.

Numa manhã de primavera, Irina ia de autocarro quando um rapazito de oito anos se sentou ao lado com a mãe. Lia em voz alta as placas das paragens e perguntava sem parar: «E se os carros andassem pelo céu, as nuvens atrapalhavam?» A mãe respondia tranquila, sem irritação. Irina olhava-os e de repente percebeu — já não estava zangada. Nem com o marido, nem com a sogra.

A raiva passara. Ficara a clareza. Não queria regressar a um lugar onde a sua voz não tinha valor.

Irina conheceu Pavel. Não num café, nem num site, nem por conselho de amigas. Simplesmente — no comboio suburbano. Encontraram-se outra vez — e outra. Ele não se parecia com Andrei. Não em termos de ser “melhor” ou “pior”. Apenas — diferente. Pasha sabia escutar. Não tentava mudá-la. Nem fingia saber tudo melhor.

Tudo foi acontecendo devagar. Sem juras nem paixões. Simplesmente — sereno.

Um dia Irina passou em frente à casa onde vivera com Andrei. Os novos moradores tinham posto cortinas verdes. No parapeito havia floreiras. Ficou uns instantes e seguiu o caminho.

Sem se virar.

Porque agora tinha tudo: liberdade, silêncio, firmeza interior. Não tinha apartamento. Não tinha passado. Não tinha fotografias em comum nos álbuns.

Mas tinha a si mesma. A verdadeira. Inteira. Segura de que, se algum dia tivesse de escolher outra vez — escolheria a si própria. E nunca mais deixaria que a transformassem na sombra de alguém.

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