«É incrível como conseguem confundir uma casa de campo com um hotel, e a si próprios – com membros da realeza. Aqui não há pessoal ao vosso serviço!»
– Finalmente chegámos, – suspirou o jovem, pousando no chão do quarto as malas com as coisas.
– Esperei pelas férias só por este momento, – respondeu-lhe a esposa e estendeu-se para um beijo.

Ela tinha acabado de defender a dissertação, mas já trabalhava. Daqui a um mês começaria um novo grande projeto e queria descansar bem e ganhar forças. Ele recebera as merecidas férias, e agora, felizes com a juventude, o bom tempo e o total isolamento, tinham vindo para a casa de campo.
A casa situava-se numa pequena aldeia. Erguia-se à beira de um riacho, e na periferia da povoação estendia-se uma bela floresta onde os jovens adoravam passear.
No quintal havia sauna, grelhador e até uma zona com espreguiçadeiras. A casa tinha todas as comodidades. O mês que os jovens planeavam passar ali prometia ser cheio de romance e momentos felizes.
Três dias passaram como num conto de fadas
O sol aquecia sem excessos e uma brisa suave afastava os mosquitos. Não apetecia sequer lembrar a internet ou contactar o mundo exterior, mas o telefone, de vez em quando, tocava.
– Atende, – murmurou Olívia, deitada na rede à sombra da macieira, acenando na direção do som. António abriu os olhos contrariado e saiu dos braços da esposa:
– Sim. Oh, olá! Claro, combina-se, há tanto tempo que não nos vemos! Pois é. Sim, sim… Exacto! Então até já, ficamos à vossa espera.
Olívia ergueu-se sobre o cotovelo e olhou para o marido com ar interrogativo.
– Quem era?
– O Misha.
– Aquele cuja mulher é a Oxana e têm gémeos?
– Isso mesmo.
– E onde é que os vamos esperar? – Olívia franziu um pouco o sobrolho e ergueu o queixo.
– Aqui, onde mais seria?
– E não me podias perguntar antes? – ficou seriamente intrigada e prestes a zangar-se.
– Vá lá! Vai ser divertido, tu gostas de receber convidados, e além disso já não nos víamos há tanto tempo, – justificou-se António, aproximando-se da esposa. – E ainda vamos ter tempo só para nós dois, eles não vêm para uma semana inteira, o Misha disse que só por três dias – beijou a mulher na face, e ela riu-se.
– Bem, desde que não seja por uma semana inteira, – disse Olívia animada, começando logo a pensar em como e onde iria instalar os convidados.
Na manhã seguinte, a calma da casa de campo estava mais agitada do que o habitual. Olívia levantou-se cedo para preparar o quarto dos convidados e acabar de arrumar o que não tinha conseguido no dia anterior. António temperava a carne.
Os convidados chegaram por volta do almoço, instalaram-se no quarto que os atenciosos anfitriões lhes tinham reservado. As crianças corriam pelo jardim e depois tentavam apanhar peixinhos na ponte de madeira, enquanto os adultos enchiam os copos com vinho leve e grelhavam espetadas. Todos estavam com espírito de passar um bom momento.

– Foi divertido na escola, mesmo que eu mal tivesse estudado, – lembrava-se Misha, mastigando um pedaço de carne.
– Pois foi, sobretudo quando fomos com a turma inteira às vinhas – confirmou António, – Quase um mês inteiro vivemos junto ao mar, aprendíamos e colhíamos uvas.
– E como nos empanturrávamos delas!
– Isso é verdade…
– Que sorte a vossa, – disse Oxana num tom ligeiramente magoado, – Cresceram junto ao mar, enquanto eu lá nos Urais só cavava batatas e caiava árvores. Não havia mar, nem sol, e muito menos uvas.
– Ora, não sei em que escola estudaram vocês, mas na minha não havia essas aulas de trabalho agrícola, já me bastava o que fazia em casa, – respondeu Olívia, – Embora, para ser justa, não tenho de que me queixar, – recostou-se na cadeira de verga e olhou para as crianças, – Os anos de escola são os mais despreocupados e felizes. Aconteça o que acontecer, as recordações ficam sempre luminosas…
Assim, entre comida e conversa, passou o primeiro dia. Os velhos amigos divertiram-se imenso, e as crianças correram tanto pelo pátio que adormeceram em poucos minutos.
– Tens ali no macieiral um ramo excelente para pendurar um baloiço, – disse Misha ao amigo, enquanto as mulheres iam lavar a loiça e deitar os miúdos.
– Achas que vale a pena fazer? – respondeu António sonolento, bocejando.
– Eu faço, só me arranjas uma tábua qualquer e uma corda bem forte.
– E como sabes que eu tenho isso?
– Ora, quem é que não tem numa casa de campo? Haveremos de arranjar…
Os olhos de António fechavam-se de sono sem remédio, por isso não respondeu ao amigo, embora o comentário de Misha lhe tivesse parecido um pouco grosseiro. O dono da casa sentiu que o convidado se intrometia onde não devia, mas o cansaço acabou por adormecer até esse incómodo.
No dia seguinte, Olívia preparou para os convidados um programa de lazer: um piquenique à beira do riacho.
Enquanto os homens procuravam a tábua para o baloiço e Oxana se ocupava das crianças, Olívia enchia duas grandes cestas para levar consigo.
Numa das cestas estavam toalhas, braçadeiras para os gémeos e alguns jogos de tabuleiro de viagem; na outra, bem fechada, refrescavam-se entre sacos de gelo maçãs, melancia, uvas, sandes, bolachas salgadas e garrafas de bebidas.
Para o piquenique decidiram ir até ao fim da aldeia – lá ficava a praia “comunitária”. O lugar era pitoresco, havia até areia limpa. Os amigos instalaram-se à sombra de um carvalho frondoso e começaram a jogar aos jogos de tabuleiro, mantendo um olho nas crianças que se salpicavam de água à beira-rio.
O passeio foi um verdadeiro sucesso. Até o barco acabaram por usar. O António e a Olívia raramente o enchiam de ar, mas desta vez lembraram-se. As crianças adoraram e os adultos também deram umas voltas.
Sem darem por isso, passou mais um dia… e depois mais alguns.

O baloiço já estava pendurado com a corda emprestada pelo vizinho, o tio Nicolau, e os convidados – passeados, banhados e alimentados. Nas horas de maior calor, António e Olívia recolhiam-se em casa para descansar debaixo do ar condicionado, enquanto os convidados não se incomodavam com o calor: apanhavam sol e ouviam música no exterior.
– Mais baixo, não estamos sozinhos, – afastava Olívia o marido quando ele tentava beijá-la.
– Porque é que isso te incomoda? – recuou António.
– Já tudo me incomoda… – Olívia sentou-se na cama e olhou para ele com tristeza. – Não sei o que inventar amanhã para entreter o Misha e a Oxana. As crianças ainda vá, ficam contentes até a brincar com a terra, mas os adultos é preciso entretê-los… Eles já deviam ter ido embora ontem e nem pensam nisso… Estou cansada…
– Então não os entretenhas, se não te apetece, – disse António, percebendo logo que dissera uma asneira. Conhecia bem a sua mulher. Fora educada de tal forma que, para ela, os convidados são sempre a prioridade quando é anfitriã – não queria nunca parecer inospitalidade. – Aliás, tens razão, já era tempo de irem para casa.
– Claro que era! Estou muito contente que tenham vindo, mas os filhos deles fazem tanto barulho! E temos só uma casa de banho, não estou habituada a estar sempre à espera da minha vez… fala tu com eles, – suspirou Olívia, fechando os olhos pesadamente.
No dia seguinte, António começou a dar de todas as formas a entender ao amigo que estava na hora de a família dele regressar à cidade.
No entanto, o Misha não queria de maneira nenhuma compreender o que significava a frase:
– Eh, há quanto tempo eu e a Olívia não ficávamos sozinhos… Na cidade partilhamos o apartamento com a irmã mais nova dela, e aqui é sempre convidados e mais convidados…
A isso, o Misha apenas respondeu:
– Eu também fugiria da irmã mais nova dela para aqui! É tão bom… tranquilo, agradável, passaria a vida inteira num lugar destes!
Aos poucos, os pequenos incómodos começaram a transformar-se em grandes e bem palpáveis.

De manhã, ao entrar na cozinha, a Olívia via muitas vezes em cima da mesa loiça por lavar ou restos de comida deixados do serão anterior. Agora deitava-se um pouco mais cedo, enquanto os convidados ficavam a conversar e a ver televisão. Gostavam também de comer já tarde da noite, quando o calor acalmava.
O António começou a reparar que o Misha pegava constantemente nas suas coisas e nunca as devolvia ao lugar. Assim aconteceu com os binóculos, as barbatanas e o carregador. Tudo o que caía nas mãos do amigo, podia aparecer em qualquer lado – menos no sítio onde estava originalmente.
As crianças partiram um prato e uma caneca de barro cara, e por duas vezes tropeçaram nos cabos do televisor, quase o derrubando. Já há mais de uma semana que o barulho não parava na casa de campo do António e da Olívia.
Os donos estavam cansados de sorrir forçadamente e de falar por meias-palavras, por isso decidiram dizer tudo de forma clara e direta:
– Queremos passar um tempo a sós durante as nossas férias, – começou a Olívia, hesitante.
– Percebo, – respondeu Misha sem se mostrar minimamente embaraçado.
– Misha, tu disseste que ficariam só uns dias, mas já passou mais de uma semana, – disse a Olívia, olhando para o amigo do marido. – Quando é que vão embora?
– Não queria dizer isto, mas não nos deixaram escolha! Não entendes as dicas ou fazes de conta que não entendes, – ajudou a esposa o António, dirigindo-se ao Mikhail.
– Ah… bem, mais uns dois dias de descanso e depois vamos para a cidade… – respondeu Misha, olhando para a mulher. Nos olhos da Oxana surgiu uma interrogação.
– Estamos a gostar tanto daqui, mas se é assim… Pois… mais dois dias e começamos a arrumar, não vos vamos atrapalhar, – concordou Oxana, bebendo de uma caneca da Olívia, a mesma que a dona já lhe pedira várias vezes para não usar nem dar às crianças. Ainda por cima, já tinham partido uma.
– Ouçam, eu assim já não aguento! Claro que atrapalham! As nossas férias estão a acabar! – explodiu de repente a Olívia. – A última coisa que queria era passar o meu descanso a servir-vos e a pagar o vosso confortável lazer na nossa casa de campo! Estou cansada de ser a anfitriã sempre prestável e de andar a arrumar atrás de convidados que deviam ter ido embora há cinco dias! Eu também quero descansar. Como não entendem os recados, digo-vos claramente – quero que se vão embora. Agora.

Os convidados olhavam para a Olívia com surpresa e ressentimento.
– Ela está a expulsar-nos? – perguntou Oxana ao marido, num tom como se a casa fosse dela própria. Depois voltou-se para a Olívia já aos gritos: – Estás a expulsar-nos?!
– Sim, – cortou Olívia. – Estou cansada de vocês. Quero que se vão embora!
Olívia levantou-se, mostrando que não haveria discussão. Não havia nada a discutir.
O António percebeu que era melhor não dizer nada à mulher naquele momento, raramente a via assim. Já os amigos surpreenderam-no. O Misha nem se mexeu: estava esparramado na cadeira e continuou sentado. A Oxana, porém, ficou imóvel com um leve sorriso de escárnio nos lábios:
– Inacreditável, que surpresa… – foi tudo o que disse, alternando o olhar entre o António e o Mikhail.
O António olhou para os convidados e acrescentou:
– Já vos estou a dar a entender há quatro dias que está na hora de partir, e vocês fazem de conta que não percebem. A culpa é só vossa. Nem eu nem a Olívia queríamos isto, ficámos muito contentes por vos receber, mas a vossa ousadia não tem limites.
A Oxana começou a levantar-se lentamente da cadeira. Virou-se para a cozinha, onde a Olívia se tinha dirigido.
– Pois muito bem, belos amigos! Primeiro convidam-nos e agora é isto? Têm pena da comida? Nós teríamos compensado tudo quando partíssemos, até podíamos deixar mais do que gastámos. Foram as crianças que vos incomodaram? Tens inveja porque não tens filhos, e por isso ficas com raiva! E ainda voltas o teu marido contra mim, – gritou Oxana, já sem a sua própria voz, em direção à Olívia. – Vamos embora! Vamos embora já!
A mulher dirigiu-se bruscamente para o quarto, para começar a fazer as malas. O Misha arrastou-se atrás dela. O António e a Olívia trocaram olhares.
Durante mais meia hora os convidados carregaram coisas que recolhiam por todo o terreno. As crianças faziam birra e não queriam partir. A Oxana só resmungava:
– A tia Olívia tem coisas para fazer, por isso não podemos ficar aqui. Sim, tínhamos prometido passar duas semanas no lago, mas olha, acabou por ser um pouco menos…
A Olívia ouvia e só se admirava com tamanha falta de vergonha.

Eles tinham planeado ficar ali duas semanas, mas nem sequer acharam necessário combinar os planos com os donos da casa, nem discutir o que trazer em termos de produtos ou bebidas. Durante todos aqueles dias em que ficaram hospedados, o Misha nunca se ofereceu para participar na compra de alimentos, incluindo batatas fritas, bolachas, doces ou frutas para os próprios filhos. A Oxana, por sua vez, nunca ofereceu ajuda na limpeza, justificando-se sempre com o facto de ter de ajudar as crianças a tomar banho, pentear-se e depois conversar com elas antes de dormir.
“Curioso… será que já fizeram esta manobra muitas vezes com outros conhecidos?” – pensava a Olívia, sentada no banco junto à casa, enquanto via o marido fechar o portão atrás do carro dos amigos.
Na casa reinava silêncio. Apenas o grande relógio de parede marcava o tempo com o tique-taque dos ponteiros.
– Será que exagerei? Perdi a paciência… Acabou por soar rude. E ainda te zanguei com o Misha… – disse a Olívia, pensativa, dirigindo-se ao marido.
– Nós aguentámos o quanto pudemos… A culpa foi minha, devia ter resolvido tudo logo quando o fim de semana acabou. Chegar-me à frente e perguntar abertamente. Mas fui adiando, sempre cheio de cerimónias… Até levar a situação ao limite, – respondeu ele. – Mas tu portaste-te bem! Fizeste exatamente o que era preciso. Pessoas assim têm de ser ensinadas e postas no seu lugar.
– Tó, vamos passar o resto das férias sem convidados… Se quiseres ver alguém, podemos nós ir visitá-los por um dia ou dois, mas cá em casa não. E da próxima vez, por favor, combina comigo antes de aceitares qualquer visita.
– O próximo vez não vai existir. Pelo menos sem a tua concordância! O Misha tirou-me completamente a vontade de voltar a convidar alguém, – respondeu António em tom de brincadeira. – Cinema ou… não cinema? – perguntou à mulher.

Os três dias seguintes passaram como num conto de fadas, e para o fim das férias restava já pouco mais de uma semana.
Os jovens desligaram os telemóveis para que nada nem ninguém perturbasse o seu descanso tranquilo.
– Parece-me, ou alguém está a bater no portão? – disse a Olívia, pousando o livro e olhando interrogativamente para o António. Ele abriu os olhos e ficou atento. De facto, alguém mexia no trinco do portão. Campainha nunca tinham instalado, e a porta estava sempre trancada.
O António saiu do baloiço de rede, e logo a seguir levantou-se também a Olívia.
– Sabes quem pode ser? – perguntou ele.
– Claro que não!
As vozes atrás do portão soaram familiares ao António. Ele abriu a cancela.
– Antócha! Aqui estamos nós! Surpresa! – gritaram em coro várias pessoas.
“Só isto é que não!” – pensou o António, olhando para a Olívia. Ela revirou os olhos e enfiou o boné ainda mais para baixo…