— Queres ser um bom filho — então sê. Mas sem o meu dinheiro! — disse a esposa.

Elena enfiou a chave na fechadura e empurrou a porta com o ombro.
A mala com o portátil puxava-lhe o ombro para baixo, os sapatos tinham-lhe feito feridas nos calcanhares, a cabeça rebentava de cansaço. Nove da noite, mas parecia que a meia-noite já tinha passado há muito.
O trabalho na seguradora sugava-lhe todas as forças. Os clientes ligavam do início ao fim do dia, exigiam, reclamavam, ameaçavam com queixas. O chefe pressionava com relatórios, os colegas passavam-lhe o trabalho deles.
Elena só sonhava com uma coisa — chegar a casa, tirar aqueles sapatos malditos, beber um chá e cair na cama.
Descalçou-se no hall, foi até à cozinha. Tirou do frigorífico o borsch de ontem e pô-lo ao lume para aquecer. Ligou a chaleira e apoiou-se na bancada. Silêncio. O Alexei devia estar no quarto.
A Katia ficou na casa da avó — Elena tinha pedido à mãe para ir buscar a menina ao jardim-de-infância, porque ia chegar tarde do trabalho.
O olhar caiu sobre a mesa da cozinha. Um talão bancário branco estava ao lado do saleiro. Elena franziu a testa e aproximou-se. Pegou no talão e leu o valor.
Quinze mil rublos.
Levantamento de numerário. Ontem, às dezassete horas e vinte e três minutos.
A mulher fechou os olhos, abriu os dedos. O talão voltou a cair sobre a mesa.
Aquele dinheiro. Tinha sido ela própria a colocá-lo no cartão anteontem. Quinze mil rublos poupados com tanto esforço para a renovação do quarto da filha. O papel de parede custava doze mil, os pincéis e os rolos mais mil e quinhentos. Faltava só um pouco — ainda dava para comprar a tinta para o teto.
A Katia dormia numa cama dobrável, no canto do quarto deles. A menina tinha seis anos e ainda não tinha um quarto a sério. Tinham prometido fazer obras antes de ela ir para a escola — no próximo ano entraria para a primeira classe. Foram juntando dinheiro aos poucos, poupando de cada salário. E agora, finalmente, tinha chegado para o papel de parede.
Tinha chegado.
Tempo passado.
Elena desligou o fogão e a chaleira. O borsch arrefecia na panela, já não lhe apetecia comer. Foi até ao quarto, onde o Alexei estava sentado ao computador portátil, colado ao ecrã.
O marido ouviu os passos, sobressaltou-se. Virou-se e viu a mulher. O rosto ficou imediatamente culpado, desviou o olhar.
— Olá — murmurou Alexei, voltando os olhos para o monitor.
— Olá — respondeu Elena. — Esqueceste-te do talão na mesa.
O marido engoliu em seco e esfregou a testa.
— Ah… sim. Eu… isto…
Elena aproximou-se e sentou-se na ponta do sofá, à frente dele. Olhava para Alexei em silêncio. À espera.
— A minha mãe precisava de medicamentos — acabou por dizer ele, sem levantar a cabeça. — Com urgência. A tensão anda descontrolada, o médico receitou remédios caros. Bem… importados.
— Quinze mil rublos em medicamentos — repetiu Elena, devagar.
— Sim — acenou Alexei. — É um tratamento completo, para um mês. Ela não consegue pagar tudo de uma vez, a pensão é pequena.
Elena recostou-se no encosto do sofá. Fechou os olhos e contou até dez. Abriu-os.
— Alexei, já é a quarta vez em dois meses.
O marido ficou imóvel, os dedos parados sobre o teclado.
— Quarta vez o quê?
— Que transferes dinheiro para a tua mãe — explicou Elena em voz baixa. — A quarta vez nos últimos dois meses. Em julho foram dez mil para arranjar o frigorífico. No início de agosto, oito mil para uma máquina de lavar nova. Há três semanas, doze mil para um cardiologista privado. Agora, quinze mil para medicamentos.
Alexei passou as mãos pelo rosto.
— Lena, mas ela é a minha mãe. Não posso recusar.
— A Liudmila Petrovna recebe uma pensão de vinte e três mil — continuou Elena. — Vive sozinha. A casa é dela, as despesas são cinco mil. Sobram dezoito mil para viver. Dá perfeitamente.
— Dá — concordou o marido. — Mas quando há despesas extra…
— Despesas extra há todas as semanas — interrompeu-o Elena. — Ora é o frigorífico, ora a máquina, ora o médico, ora os medicamentos. E a nossa Katia dorme numa cama dobrável porque não temos dinheiro para uma cama normal.
Alexei levantou-se bruscamente da cadeira e começou a andar pelo quarto. Parou junto à janela, de costas para a mulher.
— Tu não percebes. A minha mãe está sozinha. Não tem mais ninguém a quem recorrer.
— Ela tem uma irmã em Tver — lembrou Elena. — Tem sobrinhos. Tem amigas. Não está sozinha.
— A irmã vive longe, os sobrinhos têm os seus próprios problemas — respondeu Alexei. — E as amigas… sabes como ela se sente constrangida com pessoas de fora.
— Com estranhos sente-se constrangida, mas com o filho não — observou Elena. — É conveniente.
O marido virou-se de repente.
— Ela é minha mãe! Criou-me sozinha! O meu pai foi-se embora quando eu tinha cinco anos. Passou fome nos anos noventa para eu poder estudar normalmente. Pagou-me a universidade, a residência. Eu devo-lhe tudo.
— Deves — acenou Elena. — Compreendo. Mas nós somos uma família. Temos uma criança. Uma filha que em breve vai para a escola. E ela não tem um quarto a sério nem uma cama.

Alexei voltou-se novamente para a janela.
— Fazemos as obras. Mais tarde. Ainda vamos a tempo.
— Quando é esse “mais tarde”? — perguntou Elena. — Já poupamos há um ano. Sempre que juntamos uma quantia, tu dás o dinheiro à tua mãe.
— Nem sempre — murmurou o marido.
— Sempre — repetiu Elena, com mais firmeza. — Alexei, ontem pus esse dinheiro de propósito. Tínhamos combinado — o quarto da Katia é prioridade. Prometeste.
O marido virou-se, o rosto ficou vermelho.
— Tu não percebes! A minha mãe precisava mesmo dos medicamentos! A tensão está descontrolada, ela sente-se mal! O que é que eu devia fazer? Recusar? Dizer: mãe, morre, mas nós vamos comprar papel de parede?
Elena levantou-se do sofá. Aproximou-se do marido e parou a um metro dele. Olhava-o diretamente nos olhos.
— Queres ser um bom filho — então sê. Mas sem o meu dinheiro!
O silêncio caiu pesado, cortante. Alexei piscava os olhos, a tentar digerir o que ouvira.
— O quê?
— Ouviste muito bem — disse Elena, calmamente. — Queres ajudar a tua mãe, ajuda. Mas com o teu dinheiro. Não toques no que estamos a juntar para a nossa filha.
O marido levantou os braços, a voz subiu para um grito.
— É a minha mãe! A minha própria mãe! Como é que podes?!
Elena não recuou.
— E esta é a minha filha. A nossa filha. Que é mais importante do que a tua mãe.
Alexei agarrou-se à cabeça.
— Tu percebes sequer o que estás a dizer? A minha mãe criou-me sozinha! O meu pai abandonou-nos quando não havia dinheiro nenhum! Os anos noventa foram fome, frio, miséria! E a minha mãe trabalhava em três empregos para eu viver normalmente!
— Sei — acenou Elena. — Já me contaste. Muitas vezes.
— E como é que eu posso dizer-lhe que não? — continuou Alexei. — Quando ela liga a chorar, diz que se sente mal, que precisa de ajuda?
— A Liudmila Petrovna liga sempre a chorar — respondeu Elena. — E todas as vezes há uma urgência. Estragou-se o frigorífico?
Dez mil. A máquina de lavar? Oito. O médico? Doze. Os medicamentos? Quinze. E assim, em círculo.
O marido atirou o telemóvel para o sofá e virou-se para a mulher…
— És cruel! Sem coração! Eu não pensava que tu fosses assim!
— Eu sou realista — corrigiu Elena. — E penso na nossa filha, já que tu não pensas.
Alexei deu um passo em frente e apontou o dedo na direção da mulher.
— Eu penso! Mas a minha mãe…
— A tua mãe vai para um sanatório todos os verões — interrompeu Elena. — No verão passado esteve em Kislovodsk. Este ano esteve de férias em Anapa. Duas semanas. Ela própria se gabava de quanto dinheiro gastou em excursões.
— E então? — Alexei franziu a testa. — Uma pensionista tem direito a descansar.
— Tem — concordou Elena. — E nós, a última vez que fomos ao mar foi antes de a Katia nascer. Desde então, não saímos de lado nenhum a não ser para a casa de campo dos teus parentes.
O marido virou-se e murmurou qualquer coisa ininteligível.
— O quê? — perguntou Elena.
— Não compares — repetiu Alexei mais alto. — A mãe trabalhou a vida inteira. Mereceu descansar.
— E nós não trabalhamos? — perguntou Elena. — Eu trabalho todos os dias das oito às nove da noite. Tu até às oito. Os salários vão para a hipoteca, para a comida, para o jardim-de-infância. Juntamos trocos para as obras. E, sempre que conseguimos juntar alguma coisa, tu dás o dinheiro à tua mãe.
Alexei cerrou os punhos, o rosto ficou vermelho-escuro.
— Sim, dou! Porque ela é a minha mãe! Porque eu lhe devo! Queres fazer de mim um traidor? Queres que eu abandone uma pessoa da minha família?
— Eu quero — gritou Elena, sentindo a voz a tremer — que tu sejas marido! Pai! E não o eterno filho da Liudmila Petrovna!
As lágrimas começaram a correr sozinhas. Elena limpou-as com o dorso da mão, mas outras já lhe escorriam pelas faces.
— Estou farta — continuou a mulher, agora mais baixo. — Farta de ficar sempre em segundo plano. Farta de a tua mãe ser mais importante do que eu e do que a nossa filha.
Alexei estava parado, a respirar com dificuldade. As mãos tremiam, os maxilares contraíam-se.
— Tu não entendes…
— Entendo — cortou Elena. — Entendo perfeitamente. A Liudmila Petrovna manipula-te. Liga a chorar, conta como se sente mal. E tu corres logo para a salvar. E o facto de a nossa filha dormir numa cama dobrável não te importa.
— Importa! — protestou o marido. — Claro que importa!
— Então porque é que o dinheiro voltou a ir para a tua mãe?
Alexei abriu a boca, fechou-a. Virou-se de lado.
— A mãe disse que sem os medicamentos ia ficar mesmo muito mal…
— Todos os meses aparece-lhe alguma coisa nova — interrompeu Elena. — Não é uma mulher, é um poço sem fundo. Hoje são medicamentos. E amanhã o quê? Uma televisão? Um sofá novo? Uma viagem para um resort?
O marido sobressaltou-se e virou-se para a mulher.
— Chega! Não te atrevas a falar assim da minha mãe!
— E como é que eu devo falar? — Elena deu um passo em frente. — Ela sabe dos nossos problemas. Sabe que estamos a juntar dinheiro para as obras. E, mesmo assim, todas as vezes arranja um motivo para pedir dinheiro.
— Não arranja! — gritou Alexei. — Ela tem mesmo problemas!
— Quando a Katia nasceu — continuou Elena, ignorando o grito — a Liudmila Petrovna não foi ao hospital. Disse que lhe doía a lombar. Que não podia ir. E uma semana depois uma amiga mandou-me uma fotografia: a tua mãe a passear num centro comercial, a carregar sacos.
Alexei ficou imóvel.
— Isso… ela provavelmente foi comprar comprimidos…
— Três sacos de uma loja de roupa — especificou Elena. — Não eram comprimidos. Quando a Katia esteve internada com bronquite, liguei à tua mãe. Pedi-lhe para ficar com ela umas horas, eu precisava de ir trabalhar. A Liudmila Petrovna recusou. Disse que estava cansada, sem forças. E, à noite, publicou nas redes sociais uma foto num café com as amigas.
O marido ficou em silêncio. Olhava para o chão, com a mandíbula cerrada.
— A tua mãe só se preocupa consigo própria — concluiu Elena. — E tu facilitas. Todas as vezes. Apesar de termos a nossa própria filha. Os nossos próprios problemas. As nossas próprias necessidades.
Alexei levantou a cabeça. Os olhos brilhavam de raiva.
— Então eu tenho de recusar à minha mãe? Dizer: desculpa, mãe, mas já não precisas de nós?
— Não — abanou a cabeça Elena. — Tens de pensar em prioridades. Primeiro a família. A esposa, a filha. Depois todos os outros.
— A mãe não é “todos os outros” — rosnou Alexei entre os dentes.
— Para mim, a nossa filha é mais importante do que a tua mãe — respondeu Elena, com firmeza. — E para ti também devia ser.
O marido agarrou no casaco do cabide e enfiou-o pelos ombros. Virou-se para a mulher.
— Sabes uma coisa? Quem me dera que fosses metade da mulher que a minha mãe é! Nem que fosse um terço!
Elena estremeceu, como se tivesse levado uma bofetada. Ficou pálida, as mãos fecharam-se em punhos.
— O que foi que disseste?
— O que penso — atirou Alexei, puxando o fecho do casaco. — A minha mãe criou-me sozinha. Trabalhou sem descanso. Sacrificou tudo por mim. E tu? Só te queixas. Do trabalho, do cansaço, do dinheiro. Estás sempre descontente com tudo.
Elena deu um passo na direção do marido e parou a poucos centímetros.
— Vai-te embora — disse a mulher, baixo, mas com clareza.
— O quê?
— Vai-te embora — repetiu Elena. — Para a tua mãe perfeita. Já que eu sou assim tão má — vive com ela.
Alexei puxou a porta para si. Já no limiar, voltou-se.
— Vais arrepender-te. Vais arrepender-te das tuas palavras.
— Não — abanou a cabeça Elena. — Não vou.
A porta bateu. Elena ficou no meio da sala, a olhar para a porta fechada. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, mas não lhe apetecia limpá-las.
Silêncio. O apartamento vazio. Nenhum som, a não ser o tic-tac do relógio na parede.
Elena foi até à cozinha e voltou a ligar a chaleira.

Pegou no telemóvel e percorreu os contactos. Encontrou o nome certo — Igor Viktorovich, agente imobiliário. Um conhecido desde a altura em que tinham comprado este apartamento.
Escreveu uma mensagem.
«Boa noite, Igor Viktorovich. Preciso de ajuda. Procuro um T1 para arrendar. Para mim e para a minha filha de seis anos. Pode ser em qualquer zona, o mais importante é que seja barato e rápido. Pode ajudar?»
Enviou. Pousou o telemóvel na mesa. Deitou água a ferver numa caneca e colocou um saco de chá.
Amanhã ligaria à mãe e pedir-lhe-ia para ficar com a Katia por uns dias. Diria que ela e o Alexei tinham problemas e que precisava de tempo para resolver as coisas. A mãe não faria perguntas desnecessárias, iria simplesmente buscar a neta ao jardim-de-infância.
Depois iria procurar casa. Arrumar as coisas. Pensar em como viver a partir dali.
O telemóvel vibrou. Mensagem do Igor Viktorovich.
«Boa noite, Elena. Claro que ajudo. Tenho dois ou três apartamentos disponíveis. Amanhã de manhã envio-lhe os endereços e as fotografias. Veja e escolha.»
Elena respondeu.
«Obrigada. Fico a aguardar.»
Pousou o telemóvel e bebeu um gole de chá. Quente, a queimar. Sabe bem.
Em cima da mesa estava o talão bancário. Quinze mil. Elena pegou nele, rasgou-o em pedacinhos e deitou-os no caixote do lixo.
O dinheiro já não voltaria. A Liudmila Petrovna iria gastá-lo nas suas necessidades. Ou guardá-lo para a próxima ida ao sanatório. Ou para uma televisão nova. Não importava.
O importante era outra coisa. Elena já não ia aceitar que o marido colocasse a mãe acima da família. Não ia esperar que Alexei finalmente crescesse e começasse a pensar na filha.
Esperara demasiado. Tolerara demais.
Amanhã começaria uma nova vida. Sem um marido que considera a mulher de segunda categoria. Sem uma sogra que suga dinheiro sob pretextos respeitáveis.
Apenas Elena e Katia. Uma pequena família, mas verdadeira. Onde a criança vem em primeiro lugar.
Elena acabou o chá, passou a caneca por água. Foi para o quarto, deitou-se na cama e fechou os olhos.
De manhã acordou com o toque do telemóvel. Igor Viktorovich tinha enviado três opções de apartamentos. T1, perto do jardim-de-infância da Katia.
Elena viu as fotografias e escolheu o mais luminoso. Escreveu ao agente a dizer que queria visitar ainda nessa noite.
Durante todo o dia no trabalho pensou na mudança que se aproximava. Como iria contar à Katia? Como explicar que o pai já não iria viver com elas?
À noite encontrou-se com o Igor Viktorovich à porta do prédio. O apartamento ficava no segundo andar, limpo, mobilado. Pequeno, mas acolhedor. Um quarto, uma cozinha e uma casa de banho.
— Fico com ele — disse Elena, depois de ver tudo.
— Ótimo — acenou o agente. — Tratamos do contrato e já pode mudar-se.
Elena pagou o primeiro mês, recebeu as chaves. Voltou a casa e começou a fazer as malas. As dela e as da Katia.
Alexei não voltou. Não telefonou, não escreveu. Deve estar a viver com a Liudmila Petrovna. A contar como tem uma mulher cruel.
Que conte. A Elena não lhe importava.
Dois dias depois mudou-se para o apartamento arrendado. Foi buscar a Katia à casa da mãe e explicou que, a partir de agora, iriam viver separadas.
A menina aceitou com calma — aos seis anos as crianças adaptam-se mais facilmente.
— E o papá onde está? — perguntou a Katia, a olhar para o novo quarto.
— O papá está na casa da avó — respondeu Elena. — Vamos visitá-lo de vez em quando.
— Está bem — acenou a menina e correu a arrumar os brinquedos.
Elena estava junto à janela, a olhar para o pátio. Parque infantil, caixa de areia, baloiços. Um bom sítio. Tranquilo.
Uma nova vida. Sem um marido que não sabe definir prioridades. Sem uma sogra que suga dinheiro e forças.
É assustador? Um pouco. Mas é o certo.
Elena sorriu ao seu reflexo no vidro. Vai conseguir. Com certeza que vai conseguir. Ainda há muito a fazer: pedir o divórcio, a pensão de alimentos e a partilha de bens.